(Lisandro)
Acordei,
tratei da minha higiene pessoal, peguei num iogurte líquido e saí de casa. A
caminho do centro de treinos comecei a pensar como iria contar ao Salvio o que
se tinha passado, a imaginar mil e uma maneiras dele reagir. Estes pensamentos
começaram cada vez mais a perturbar a minha concentração que até ia provocando
um acidente. Quando cheguei ao Seixal, fui diretamente para o balneário onde já
estavam alguns colegas que os cumprimentei, vesti o equipamento de treino.
- Terra chama Lisandro! – gritou o Eliseu
dando me um toque no braço, olhei para ele –
onde estás com a cabeça? Estou farto de te chamar
- Desculpa…
- Quem é a miúda que te anda a tirar o
sono? -
rimo-nos
- Miúda!?
- Não me vais dizer que é um rapaz, pois
não?
- Nooo, não! Estou só com um problema
- Posso ajudar em alguma coisa?
- Não, isto resolve-se mas obrigado por
perguntares
- Vamos para o treino? – perguntou o Almeida,
acenamos que sim e fomos todos juntos.
Durante
o treino, evitei ao máximo falar com o Toto, tentava não ficar nos mesmos
grupos que ele e assim evitava a conversa. Foi dos piores treinos da minha vida
passei o tempo todo desconcentrado, a cometer erros infantis. O mister teve que
me chamar algumas vezes a atenção, o que não acontece frequentemente.
- O que se passa contigo? – perguntou o Nico
quando saímos do treino
- Depois eu explico-te, OK?
- Estás me a deixar preocupado
- Não precisas, só não quero falar agora
–
sorri
- Já sabes que podes contar comigo para
tudo
- Eu sei e agradeço por isso – sorri – logo vais estar com a Magda?
- Sim, ela está a fazer um piquenique
com os amigos e combinei ir ter com ela. Como volta hoje para o Porto tenho de
aproveitar todos os momentos.
- Tens que a convencer a vir para
Lisboa, fica junto da amiga
- Quem me dera que ela viesse mas não a
quero pressionar a nada. Eu respeito o espaço dela como ela respeita o meu
- Eu compreendo e fazem bem em respeitar
o espaço um do outro é sinal que gostam realmente um do outro
- Tu sabes que gosto muito dela
- Gostas de quem? – perguntou o
Fejsa agrrando-se ao Gaitán
- Não conheces
- Está na altura de a trazeres a Portugal
- Mas ela é portuguesa
- Então temos que combinar um jantar todos
juntos, um jantar de casais
- Eiiii e eu fico de fora – repostei eu e eles
riram-se
- Convidas a Carol – sugeriu o Nico
- Eu e ela somos só amigos
- Só porque ela não quer, não é? – perguntou o
Fejsa
- Ah? O quê? Naaa, nada disso! Eu só
gosto dela como amigo
- Cheira-me que não seja só isso – continuamos a
conversar mais um pouco, depois fomos tomar banho e no fim encontramo-nos todos
no refeitório.
Estava
a petiscar qualquer coisa para repor as energias, quando o Salvio junta-se a
mim e combinamos que cada um ia no seu carro e encontravamo-nos em minha casa
para almoçar. Ele mal terminou levantou-se e saiu porque ainda queria passar em
casa, eu alguns minutos depois fui também embora. Antes de arrancar com o carro
mandei uma mensagem
Para: Carolina
- Buenos dias, como estás? Dentro de
momentos vou conversar com o Toto, seja o que deus quiser.
De: Carolina
- Bom dia, estou bem e tu? Força nisso! fico a
espera de novidades! Já sabes que estou aqui para tudo!
PS:
eu guardo uma fatia de bolo para ti jajajaja
-
Um pouco nervoso. Obrigado por tudo, a sério, agradeço de coração!
PS:
logo vou busca-la jajajaja
-
Não tens que agradecer :) depois cobro
com juros jajajaja
PS:
estás-te a fazer de convidado?
- sempre tão querida :)
PS: sim mas só se quiseres
- fico a espera da sua visita na minha
mansão, pelas 19h30
- Lá estarei :)
Sai
do caixa rapidamente pois não estava ninguém para tirar foto ou dar autógrafo.
Quando cheguei a casa, pus a mesa, coloquei o almoço no forno para aquecer e
preparei uma salada. Passado nem meia hora o meu amigo tocou à campainha.
Sentamo-nos para almoçar e fomos conversando.
- Estavas muito desconcentrado hoje no
treino, ouvi várias vezes o mister a chamar-te – disse ele
- Não estava nos meus dias
- É a tal rapariga, a Carolina, que anda
a mexer contigo?
- Porque é que hoje toda a gente me pergunta
isso?
- Se calhar andas a dar muito nas vistas
- Mas eu só gosto dela como amigo, é
difícil de entender?
- Não te enganes a ti próprio, amigo
- Juro que estou a ser o mais sincero em
relação ao que sinto por ela
- Vais me dizer que estar com ela não
mexe contigo?
- Admito que a Carol é muito gira e que
não me importava de ter algo com ela mas eu só sinto uma grande amizade por ela
- Os teus olhos até brilham quando falas
nela, não enganas ninguém - riu-se
- Ohhh já disse que isso não é verdade,
agora acredita no que quiseres
- Estou a pegar contigo mas só quero que
saibas que se sentires algo por ela eu apoiar-te-ei, segundo o que dizes ela
parece ser uma boa rapariga, uma miúda cinco estrelas
- Não tens noção como ela é incrível!
Ela é mesmo boa amiga e por mais que não concorde com as decisões que tomem ela
apoia os amigos, isso é de valor! Tem sido um grande apoio
- Só é incrivel porque sou o ídolo dela,
eu dei-lhe os ensinamentos - rimo-nos
- Não és nada convencido
- Estou a brincar contigo! Mas passasse
alguma coisa na tua vida? – bebeu um pouco de água – para dizeres que ela tem sido um grande apoio
- Pois… - fiz uma pausa – passasse algo e foi por isso que te
convidei para vires cá. Queria falar contigo em privado, sem ninguém para
interromper
- Estás me a deixar preocupado, que se
passa?
- Não sei como contar isto, ou melhor
não sei como começar
- Começa pelo início, será mais fácil
- OK – respirei fundo, os nervos
começavam a dominar – antes de eu vir
para o Benfica, eu fui de férias para Madrid como sabes
- Sim, tu contaste
- Um dos dias fui sair com os meus
amigos à noite, no bar onde fomos estava lá um grupo de raparigas bem giras e
um dos que estava comigo meteu na cabeça que tinha que conquistar uma menina
daquele grupo. Juntamo-nos a elas, cada um ficou a falar com uma das raparigas
e eu não fui excepção, não conhecia aquela rapariga de lado nenhum e começamos
a conversar. Copo puxa copo e mais tarde eu beijei-a, ela pegou nas coisas dela
e foi-se embora.
- Beijas assim tão mal? – desatei a rir,
coisa que imaginaria impossível visto o nível elevado dos meus nervos
- Bela conclusão
- Qual o problema? A rapariga era a Carolina?
- Não
- Então? Não estou a perceber o problema
- Mais tarde descobri que a rapariga é
casada e tem um filho
- Eiiii mas como descobriste isso?
- Da pior forma, ela é esposa de um
grande amigo meu
- E tu não a conhecias?
- Ele só depois desse episódio infeliz é
que se tornou meu amigo
- Ah? Isso não faz sentido!
- Faz – olhei para o
prato, desviando o olhar dele, respirei fundo – porque quando cheguei a Lisboa e tu me levaste a tua casa, descobri
que a rapariga que tinha beijado naquela noite era a tua mulher, era a Magali –
olhei para ele, que se levantou, pegou nas coisas dele – Salvio?! Onde vais? – saiu de minha casa sem dar qualquer
explicação, sem reagir, sem dizer nada! Não sabia o que pensar sobre aquilo, se
era bom, se era mau! Só sabia que o melhor era deixá-lo pensar sobre o assunto,
dar-lhe tempo e espaço para ele reflectir sobre o que lhe acabara de contar.
Levantei
a mesa, arrumei a cozinha e sentei-me a ver televisão, como não conseguia
abstrair-me do que se passará, liguei a PlayStation e pus-me a jogar pes. Nem
dei pelo tempo passar até que as 18h39 recebo uma chamada da Magali
- Sabes o que se passa com o Toto? Ele
veio a casa, pegou numa muda de roupa e saiu sem dizer nada
- Precisa de estar sozinho
- Mas porquê? O que se passa? Estou
muito preocupada com ele! O que vou dizer ao Valu quando perguntar pelo pai?
- Dizes que veio dormir a minha casa
- Mas podes me dizer o que se passa?
- Não queria ser eu a dizer
- Não me digas que lhe contaste tudo?
- Só contei do primeiro beijo, mas está
descansada que eu disse a verdade! Que fui eu te beijei e que tu foste logo
embora
- Não tinhas nada que contar, prometemos
que nunca contariamos! – disse ela exaltada
- Eu sei mas houve pessoas próximas que
descobriram e eu não quis continuar com esta mentira ao meu amigo!
- Se fosse teu amigo, continuavas
calado!
- Preferias que terceiros lhe fossem contar?
- Não
- Eu resolvi o problema, contei tudo e
não me arrependo de nada! Tirei um peso de cima de mim
- Fizeste o melhor para ti e não
pensaste na minha família! – desligou a chamada
Não
fiquei chateado com atitude da Magali pois compreendia a situação dela mas continuo
a achar que fiz o melhor, contar-lhe toda a verdade e cortar o mal pela raiz.
Sabia que teria que lutar para conquistar a confiança do meu amigo e estou
disposto a isso por mais difícil que seja. Depois disto, peguei nas minhas
coisas e fui ter com a Carol, tal como combinado. Eram 19h35 quando cheguei lá,
ela tinha chá e bolo como prometeu. Sentamo-nos no sofá e contei como correu a
conversa com o Salvio
- Só tens que lhe dar tempo agora – disse ela
- Eu sei, o pior vai ser no local do
trabalho
- Aí têm que ser ambos adultos e pôr os
problemas de lado
- Sim eu sei, mas vai ser complicado
- Vai mas vocês vão dar a volta a isso tudo!
Eu sei que sim! -
piscou o olho
- Como correu o Picnic?
- Correu muito bem, festejamos o
aniversário do meu amigo de maneira diferente
- Aposto que onde quer que ele esteja está
muito feliz pelo gesto que vocês tiveram
- Espero que sim ainda por cima a Magda deixou-me
a chorar por causa dele
- Alguém filmou isso? Quero ver isso!
- Não, ninguém filmou! O gelo está a
derreter
- Eu dou este efeito nas pessoas – ri-me
- Que parvo – ela ia-me a dar
um estalo no braço mas agarrei-lhe a mão e puxei-a para mim, prendendo-a entre
o meu peito e braços, comecei a fazer-lhe cócegas até ela não aguentar mais de
tanto se rir – isso foi golpe baixo
- Para aprenderes a não te meteres
comigo
- Tu gostas mais de mim que chocolate
- Pouco convencida a menina
- É de muito lidar contigo
- Ao menos ensino-te alguma coisa, menos
mal
- Podiam ser coisas melhores - fez-me uma
careta e continuamos a falar mais um pouco
- Obrigado por tudo Carolina, a sério,
és incrível!
- Amizade não se agradece – quando me ia a
despedir dela com dois beijinhos, ela abraçou-me e eu retribui apertando-a com
força. Este abraço sabia bem, era reconfortante, carinhoso. – estou aqui para tudo – sussurrou ela
ao meu ouvido
- Também estou aqui para tudo - dei-lhe um
beijo na testa e fui embora.
Quando
cheguei a casa, comi alguma coisa e depois fui-me deitar, custou um pouco
adormecer pois os pensamentos eram imensos mas lá consegui. Acordei cedo para
mais um treino, fiz as coisas habituais e saí. No fim, estávamos todos no
balneário, fui ter com o Toto com intenção de lhe dizer que a Magali estava
preocupada com ele
- Salvio, podemos falar?
- Não quero falar contigo – virou costas
- Mas Salvio - pus-lhe a mão
no ombro, ele virou-se rapidamente e deu-me um soco. O Nico meteu-se de imediato
no meio dos dois e acabou por levar o segundo soco dirigido a mim, depois disto
o resto da equipa separou-nos logo.
O
Luisão levou o Toto dali para fora enquanto o Fejsa foi buscar gelo para
colocar no olho do Gaitán e no meu lábio. O ambiente no balneário estava um
pouco perturbador pois estava tudo a perguntar o que se passara, eu só
respondia que não era nada e que tudo se ia resolver.
- Oh Nico, coitado de ti. Sem culpa de
nada levaste aí um belo gancho – disse o Almeida e todos nos rimos
- Maldita a hora que decidi meter-me no
meio! Licha, vais pagar isto com juros! – disse ele meio a rir
- Podemos ir lá para fora falar?
- Vamos – levantamo-nos e
fomos – o que se passou entre vocês? O
que foi esta cena?
- Isto é sobre aquele problema que te falei
–
expliquei-lhe tudo direito
- É complicado não sei o que te dizer
sinceramente
- Eu sei que fiz asneira mas eu nem
sequer sabia quem ela era
- Pois no meio disto tudo ela é que agiu
mal mas olha já está feito, já contaste a verdade agora dar tempo ao tempo e as
coisas vão-se compondo
- Sim, eu sei. Não quero estragar a
família deles, não quero nada com ela! Nem sequer me sinto atraído por ela!
- Estás atraído por outra pessoa, não é?
–
sorriu – mas falando de coisas sérias,
sabes que isto vai dar castigo para os dois, não sabes?
- Sim, eu não me importo de ficar com o
castigo dos dois
- Não exageres, porque foi ele que não
soube ter cabeça fria e explodiu no local errado
- Vamos ver o que acontece, não quero
sofrer por antecipação
- É melhor, porque não me contaste isto
antes?
- Porque prometi a Magali que morria
connosco mas houve uma pessoa que descobriu e não queria que ele soubesse por
terceiros
- Quem foi? Conheço?
- Conheces
- Alguém da equipa?
- Não, foi a Carolina, a amiga da Magda
- O quê? Então foi por isso que te fui
buscar no outro dia a casa dela de madrugada?
- Sim, foi quando ela me confrontou com
isto
- Se ela sabe quer dizer que a amiga
também sabe! E não me disse nada…
- Provavelmente sabe mas não te zangues
com ela
- Não te preocupes com isso, preferia
saber da tua boca como aconteceu
- Estás zangado comigo por saberes das
coisas desta maneira?
- Não vou mentir, fiquei um pouco
sentido mas se prometeste levar isto para a cova compreendo a tua decisão
- Desculpa por teres levado um soco por
minha causa, não queria que nada disto tivesse acontecido
- Na boa, deixa lá isso já passou – conversamos
mais um pouco até o Maxi nos vir chamar avisando que todos já se tinham ido
embora. Fomos tomar banho e depois fomos embora.
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