quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

34º Capitulo - Essa página já está virada...

(Carolina)

            Sete da manhã, o meu despertador toca e a minha vontade de sair da cama é zero. Não tinha saudades nenhumas de me levantar a esta hora para ir trabalhar mas lá terá que ser. Levantei-me, fiz as coisas habituais e saí de casa. Quando cheguei ao local de trabalho, alguns dos meus colegas já estavam prontos e estavam sentados nos sofás que temosàa porta dos balneários.
- Bom dia alegria – disse eu toda sorridente
- Alguém acordou bem-disposta – disse o Alex, um dos rapazes que repõe as coisas nas prateleiras
- As mini férias serviram para repor energias
- Ainda bem assim podes trabalhar por todos nós – rimo-nos
- Naaa, não me parece – entrei no balneário – Olá Pipa, como estás?
- Bom dia, estou bem e tu? Como correram as férias?
- Estou bem, correram bem mas soube a pouco e tu, novidades?
- Sim mas ao almoço podemos falar melhor? – entendi que ela não queria falar ali, ainda ninguém sabia do que se passava
- Claro, à hora do costume já sabes
- Ok e a que se deve essa alegria toda?
- Nada, só estou bem com a vida e esta semana fez-me muito bem – sorri
- Ainda bem – fomos para o nosso posto enquanto conversávamos
            Na hora de almoço como combinado, encontramo-nos e fomos comer. Cada uma foi buscar o que lhe apetecia, depois arranjamos mesa e sentamo-nos para falar.
- Já contei tudo ao Pedro e ao Afonso – disse a Filipa
- A sério? E como reagiram?
- Ficaram chocados com a hipótese de serem pais já com esta idade mas disseram que assumiriam todas as responsabilidades apesar de não termos qualquer relação
- Grande atitude da parte deles, se fossem outros fugiam com o rabo à seringa – ela riu-se – e a questão de não saberes quem é o pai?
- Isso… bem isso foi o mais difícil, nenhum deles reagiu bem
- O que já se esperava, né?
- Sim, agora tenho que ir a uma obstetra perguntar como posso fazer o teste, se isso interfere com a saúde do bebé
- Não conheço nenhuma aqui em Lisboa para te ajudar
- Obrigada mas não é preciso, a minha mãe conhece uma e já marcou uma consulta para sexta ao final do dia para não ter que faltar.
- Ainda bem e tu como estás a lidar com isto tudo? – colocou a mão esquerda na barriga fazendo uma pequena festa
- Ainda é tudo muito confuso, há horas que penso que o melhor a fazer é abortar mas há outras que penso “não, esta criança não tem culpa dos meus erros” – olhou para a barriga – vou levar isto até ao fim e sei que vai correr bem – sorriu
- Já sabes que podes contar comigo para o que for preciso, apesar de não sermos propriamente amigas, né? – olhei para ela que riu – estou aqui para ajudar
- Obrigada Carolina não sei como agradecer – fez uma pausa – não sei se é o melhor momento mas eu gostava de te pedir desculpa por tudo o que te fiz passar, sei que fui uma besta e não te devia ter dito as coisas daquela maneira mas estava tão chateada por vos ver juntos que descarreguei tudo em ti – olhou para mim – eu aproveitei-me da fragilidade do Pedro em prol de algo que queria a algum tempo… - tentei interrompê-la mas em vão – deixa-me terminar por favor, eu achei que o que sentia por ele já tinha passado mas voltar a estar com ele, voltar a conviver com ele todos os dias despertou tudo o que estava aqui guardado e à primeira oportunidade pronto, envolvemo-nos e estraguei a vossa relação, estraguei a minha relação com ele e estraguei a minha vida, basicamente estraguei tudo!
- Não digas asneiras, são os dois culpados! Se aconteceu foi porque ambos quiseram, não o culpo só a ele nem só a ti, para mim erraram os dois, porém já não quero saber disso – sorri para aliviar o ambiente – se me senti magoada, traída? Claro que me senti mas agora só tenho que seguir em frente, esquecer tudo e ser feliz – olhei para ela – e não estragaste a tua vida, só ganhaste um presentinho para te vir dar muitas alegrias, independentemente de tudo, é assim que tens que pensar.
- Obrigada Carol por tudo mesmo
- Não tens de quê– sorri, ela retribuiu, conversamos mais um pouco e fomos trabalhar.
            O tempo parece que passa a voar, já é quarta-feira, dia da palestra dos rapazes lá no Seixal, estou mortinha para saber como correu aquilo, adorava ser uma mosca para os ver a falar. Como estava na minha hora de almoço mandei mensagem ao Licha.

Para: Lisandro
- Boa sorte para logo, não te engasgues :p

De: Lisandro
- Obrigado miss simpatia

- Ao menos sou miss em alguma categoria :p
- Sempre com resposta na ponta da língua
- Por isso é que me adoras ;)
- Convencida
- Realista, mi amigo
- Pronto ganhaste
- Ganho sempre :p logo queres jantar com a tua amiga?
- Vou jantar com outra
- Facada no pâncreas
- Vou jantar com o Salvio, tona
- Depois quero saber de tudo :) vou trabalhar , kiss kiss
ps: agora a sério, boa sorte ;)
- Muchas gracias y buen trabajo

            Guardei o telemóvel e fui fazer o meu serviço.

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(Lisandro)

            À medida que a hora da apresentação se ia aproximando começava a ficar mais nervoso, não queria nada fazer má figura em frente aos mais novos. No fundo, eles vêm-nos como exemplos a seguir e sonham um dia estar no nosso lugar. Entramos no auditório acompanhados do Rui Costa, outro grande exemplo, a sala apesar de não ser muito grande estava cheia parecia que tinham convidado todas as escolas dali da zona para nos ouvirem, mas eram só os escalões mais novos (juniores, juvenis e iniciados). O Rui fez questão de nos apresentar, como eles não soubessem quem nós somos e depois chegou a minha vez de falar.
- Boa tarde – todos responderam em coro “boa tarde” – antes de mais, quero vos agradecer por terem vindo, de certeza que devem ter coisas mais interessantes para fazer do que ouvir estes três – apontei para mim, Salvio e Nico e todos na sala se riram – bem, nós estamos aqui para falar um pouco o nosso percurso até chegarmos aqui ou melhor até nos tornarmos jogadores profissionais – fiz uma pausa – cada um de nós teve um percurso diferente, como vão reparar. Podem interromper sempre que quiserem para tirar dúvidas ou fazer perguntas, ok? – olhei em volta e todos acenavam que sim – Bem, desde pequeno que sempre quis ser jogador de futebol, desde o primeiro dia que o meu pai me deu uma bola, depois comecei a jogar com os outros chicos no meu bairro. Aos 17/18 anos comecei a jogar profissionalmente num clube lá na Argentina, o Chacarita Juniors depois fui para o Arsenal de Sarandi onde ganhei o Campeonato Argentino e a Supercopa Argentina, até que o Benfica me contratou para substituir o Garay mas acabei por ser emprestado ao Getafe e depois regressei
- O Lisandro sempre foi defesa central? – perguntou um dos miúdos
- No, comecei a jogar como avançado e por volta dos meus 12/13 anos o meu treinador explicou-me mais ao menos como se jogava como defesa e a partir daí sempre joguei como central
- Qual das duas posições preferes?
- Defesa sem dúvida, apesar de muitas vezes subir para ajudar a equipa
- Sempre viveste com os teus pais até vir para a Europa? – perguntou outro rapaz
- No, quando fui para Chacarita, fui viver sozinho para Buenos Aires
- E tu sabias cozinhar?
- Todos sabem fazer omeletes – rimo-nos – na verdade não sabia cozinhar mas tive que aprender senão passava fome
- E em relação à roupa?
- Juntava tudo e quando fosse a casa a minha mãe lavava, não queria correr o risco de estragar a roupa
- Na Argentina não há centros de treinos como o Seixal?
- No, só mesmo os grandes clubes é que têm mas nenhum tem uma infraestrutura como esta – ficaram todos espantados a olhar para nós mais alguma pergunta? Senão passo a palavra ao meu colega – apontei para o Nico enquanto todos acenavam que não
- Bem, obrigado mais uma vez por terem vindo – começou por dizer – ao contrário aqui do Lichi, estive um tempo sem jogar, o mister que me treinava não me colocava a jogar
- Esse treinador deve ser mesmo burro – comentou um dos miúdos e começamos a rir
- Era opção dele, não podia fazer nada só treinar e esperar que me deixasse jogar – fez uma pausa – por causa disto é que pensei em desistir do futebol
- Ainda bem que não o fizeste – disse o miúdo mais pequenito desta sala – mas já agora porque não desististe?
- Porque quando disse à minha mãe que o ia fazer, ela disse então tinha de continuar com os estudos e como eu não gostava de o fazer disse logo que continuava no futebol – rimo-nos – mas o conselho que vos quero dar é que continuem a estudar e que se apliquem na escola porque hoje em dia é muito importante. Estou arrependido por não ter prosseguido os estudos e dedicar-me só ao futebol.
- Sempre jogaste no Boca Juniors? – perguntou outro rapaz
- Sim sempre, desde chiquito até o Benfica me contratar
- Gostavas de lá voltar?
- Si, gostava de terminar lá a minha carreira se for possível é claro
- Como foi jogar com o teu ídolo? Como foi partilhar o balneário com o Riquelme? – voltou a perguntar o pequenito
- Foi a melhor sensação do mundo, tê-lo todos os dias ali a ensinar-me foi ótimo. Cresci imenso
- É verdade que em Junho vais embora?
- Não quero pensar nisso, estou aqui no Benfica, estou bem e quero ajudar a equipa a ganhar títulos, é isso que me interessa – pela reação dos miúdos, não era a resposta que queriam ouvir mas o futebol é mesmo assim hoje estamos aqui, amanhã podemos estar do outro lado do mundo – mais alguma questão?
- Tens namorada? – perguntou o rapaz mulatinho que estava na primeira fila e o Gaitán riu-se, aposto que não sabia o que responder. Se dizia a verdade sujeitava-se a mil perguntas (quem ela é? Onde a conheceu? Se apoia a carreira dele, etc) ou dizia que não e acabava o assunto por ali. Olhou para mim como quem diz “salva-me” e eu limitei-me a sorrir como incentivo.
- Sim, tenho namorada – o burburinho instalou-se na sala, o Rui Costa pediu silêncio para continuarmos. É a vez do Toto falar
- Boa tarde – disse ele
- Boa tarde – respondeu toda a sala
- Isto de me deixarem para o fim para falar não tem jeito nenhum – rimo-nos – é que o meu percurso foi mais facilitado que o deles. Quando comecei a jogar, em pequeno, foi nas escolinhas do Lanus e aí continuei até vir para a Europa. O clube era pertinho de casa, tinha a minha mãe para me fazer as refeições e lavar a roupa, e nunca tive problemas com o mister. Que mais vos posso dizer? – ficou a olhar em volta – se calhar o que me diferencia são as constantes lesões, ou partir o tornozelo ou braço ou romper o ligamento no joelho
- Como é que te sentiste quando foste campeão e não pudeste festejar com a equipa? – perguntou um rapazinho
- Foi um misto, estava muito feliz pela conquista, por ser a recompensa do nosso trabalho durante o ano todo, era aquilo que mais queríamos mas por outro lado estava muito triste porque sabia que não poderia ajudar a equipa nos últimos jogos, nas últimas finais que ainda iam ser disputadas. E as dores também não ajudaram nada
- Quando é que vão parar as lesões? – perguntaram
- Por mim não tinha mais nenhuma mas faz parte do nosso trabalho. Umas mais graves que outras mas faz parte, não conheço nenhum jogador que nunca tivesse uma única lesão. Às vezes chamamos lesão a simples queixas musculares mas para precaução ficamos um ou dois jogos sem jogar para não agravar nada e não termos uma paragem maior
- É pior ficar de fora por lesão ou ficar no banco?
- Lesão porque no banco ao menos sabemos que ainda há uma possibilidade de entrar e ajudar a equipa por lesão não há nenhuma – rimo-nos
- Salvio, como é ganhar uma liga europa? – perguntou outro rapaz
- É incrível! Nós, sul-americanos, sempre sonhamos vir para Europa jogar a Liga dos Campeões, sonhamos jogar nos melhores clubes do mundo ou jogar na Liga Europa que também é uma grande competição, muito competitiva e é um orgulho enorme erguer aquele troféu, foi a recompensa pelo nosso trabalho. Sabe sempre bem sermos campeões – sorrimos e as conversas paralelas começaram a surgir
- Alguém tem mais alguma pergunta? – perguntou o Rui Costa e todos acenaram que não – então quero agradecer aos três por terem vindo cá, na vossa folga, e contar um pouco da vossa experiência, da vossa história. Creio que foi enriquecedor para todos estes jovens ouvirem o vosso testemunho, para eles verem que nem sempre é fácil chegar a onde nós chegamos, que tem que haver muito trabalho, empenho e dedicação. Muito obrigado! – todos se levantaram, bateram palmas e nós agradecemos.
            Alguns miúdos foram saindo, outros vinham ter connosco para pedir foto ou autógrafo. Quando todos já tinham saído, despedimo-nos do Rui e fomos embora. No parque de estacionamento, eu e o Salvio agradecemos ao Nico pela ajuda neste desafio, foi bom para os rapazes terem vários pontos de vista. Depois de ele ir embora, nós combinamos que mais tarde ia ter a casa do Salvio para depois irmos jantar e cada um foi à sua vida. Antes de arrancar mandei mensagem à Carol

Para: Carolina
- Já terminou, continuo vivo :)

De: Carolina
- Ohhh que pena! Vou ter que te aturar por mais uns tempos…

- :(
- I’m joking :p correu bem?
- Sim acho que eles gostaram
- Isso é o que interessa! E agora vais jantar com o Salvio? Manda-lhe um beijinho meu
- Para ele há beijos para mim só piadinhas…
- Já sabes o que a casa gasta :p
- Fica lá com o Toto…
- Quero o meu amigo ;)
- Ahora olvide :p
- Olha tá bem, bom jantar!!!!
Ps: kiss for you
- mañana cenas conmigo?
ps: besito
- 18h30 em minha casa e só te deixo ir embora na sexta ;)
- Ok
            Na hora combinada estava em casa do Eduardo para o ir buscar, fomos jantar a um dos restaurantes ali na Margem Sul. Depois de nos sentarmos e pedirmos o que queríamos, tomei a iniciativa de falar do assunto pendente
- Antes de tudo, quero-te agradecer por teres aceitado jantar comigo para conversarmos
- No tens que agradecer, tínhamos que o fazer – respondeu ele
- Mas depois de tudo o que se passou podias não querer
- Claro que quero, sabes que a nossa amizade era importante para mim – sorri ao ouvir, significava que ele estava mesmo disposto a dar uma segunda oportunidade
- Para mim também e foi umas das razões que me levou a contar-te tudo
- Pois mas sabes que preferia que me tivesses dito logo de início e não esperares que terceiros descobrissem
- Sim, eu sei e peço desculpa por isso – olhei para o prato cabisbaixo
- Essa página já está virada agora temos que pensar no futuro – olhei para ele que sorria – não estou a dizer com isto que agora vamos ser os melhores amigos desta vida. Estou a dizer que neste momento vamos começar do início, isto é, falamos nos treinos, podemos ir sair de vez enquando como faço com o Nico, jogamos umas partidas de play. Vamos vendo como as coisas correm, vamos deixar o tempo falar por si
- Si, es lo mejor
- Não peças para confiar em ti, porque neste momento eu não consigo. É tudo muito cedo para tal
- Si, yo entendo e não ia pedir nada disso, vou te dar o teu espaço e vou tentar reconquistar a tua confiança
- Obrigado por compreenderes e aceitares
- Oh no es nada, tú hacias lo mismo por eso – o empregado veio com a comida e fomos conversando.
            Falamos sobre a palestra, sobre como estavam as coisas com a Magali, ele só me disse que já tinham feito as pazes, e falamos sobre futebol, o Benfica e o campeonato Argentino.
- Afinal o que é que tu e a Carolina têm um com o outro? – perguntou-me
- Somos só amigos
- Vais-me dizer que vocês ainda não se envolveram? As faíscas saltam quando se olham – soltei uma gargalhada
- Nooo porque estaria a mentir
- E ainda me dizes que são só amigos?
- E somos pero temos algo especial apesar de não sentirmos nada mais do que uma bonita amizade. Aproveitamos que estamos os dois solteiros para nos divertirmos – ele riu-se
- Desde que não se magoem com isso no final
- Si, nós combinamos que mal achemos que os sentimentos estão a mudar ou apareça alguém na nossa vida, que falamos
- Fazem bem – falamos mais um pouco, paguei a conta, levei-o a casa e depois fui para minha para descansar que amanhã é dia de mais um treino.

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(Carolina)
           
            O dia hoje no trabalho passou a correr, já não me lembrava de ter um dia assim que entrava e que passado “dois minutos” estava a sair. Como tinha um tempinho até o Licha chegar a minha casa liguei à Magda.
- Alô
- Oi tudo bem? – perguntou ela
- Tudo bem e contigo?
- Tirando que já não me lembro de ter uma conversa decente com o Osvaldo, está tudo bem
- Hein? Explica-te
- As nossas conversas ultimamente têm sido “Olá tudo bem? Tudo e contigo? Como correu o dia? Bem e o teu? Também. Ainda bem, vou dormir. Boa noite”
- O homem está parvo?
- Eu compreendo a parte dele, são os jogos, são os treinos, foi aquela palestra. Deve à noite querer dormir para descansar
- E durante a tarde não sabe mandar mensagem?
- Aí estou em aulas e sabes que raramente estou com o telemóvel
- A mesma de sempre
- Fico um bocado triste por não conseguir falar mais tempo com ele, mas entendo a parte dele e respeito isso
- Têm que arranjar um meio-termo e falarem tipo às 6/7 horas
- Sim, eu ia-lhe ligar agora se a senhorita não me tivesse ligado
- Ei agora a culpa é minha? Xau ai
- Estou a brincar contigo
- Pois pois
- Olha e novidades?
- O estúpido vem cá hoje para me contar como correu o jantar ontem
- Vou acreditar que seja só por isso
- Já não pode vir visitar a sua querida amiga?
- Pode e deve mas tenham juízo
- Já sabes que sim
- Depois quero saber tudo, se eles se entenderam ou se voltaram a discutir
- Até os mato se não fizeram as pazes
- Ahahahah quero ver isso
- Não duvides, fecho-os num quarto sem água, sem comida, sem nada até se entenderem
- Ia ser bonito de ver
- Depois não me perdoariam
- Pensa noutra solução – a campainha tocou
- O cromo chegou – levantei-me para ir abrir a porta de lá debaixo
- Vai lá que vou tentar apanhar o outro para falar
- ok ok. Hasta
- Até amanhã – desliguei, abri a porta de casa e lá estava aquele metro e oitenta e oito sexy a minha frente.
Não resisti, puxei-o pela camisola para junto de mim e beijei-o, ele retribuiu, colocou as mãos na minha cintura. Os beijos iam-se intensificando à medida que íamos caminhando para dentro de casa, sem me afastar muito, fechei a porta e voltei a beijá-lo. A tensão entre nós era enorme, o ambiente era caliente! Delicadamente ele começou-me a tirar a camisola entre beijos e carícias, depois tirei a dele e assim que ficou de tronco nu, petrifiquei ao apreciar aqueles abdominais. Aquilo sim, hipnotiza qualquer uma! Percorri com a minha mão cada centímetro da barriga dele, olhei para ele que sorria, beijei-o suavemente, com uma mão juntou-me a ele e com outra colocou o cabelo atrás da orelha, começou-me a beijar o pescoço, a orelha, a bochecha, o nariz até que quando chegou aos lábios deixamos todo o desejo, toda aquela química, toda aquela atração entre nós falar mais altos, foram beijos sucessivos, cada vez mais intensos, cada vez mais escaldantes. Fomos entre beijos, amassos, carícias até à cama, deitou-me sobre ela, tirou as calças e deitou-se sobre mim. Apesar de o desejo ser imenso, as hormonas já estarem todas descontroladas, estava na altura certa de colocar a minha vingança em prática, consegui mudar as nossas posições e ficar por cima dele. Dei-lhe um beijo leve nos lábios
- Isto foi só para abrir o apetite – saí de cima dele
- Ah?
- A vingança é um prato que se serve frio meu caro – fiz-lhe uma careta
- A sério? Isto não se faz
- Temos pena – atirei-lhe a t-shirt que estava no chão enquanto ele vestia as calças, vesti a minha camisola e sentei-me no sofá colocando os pés em cima
- Isto foi vingança de quê? – perguntou enquanto se sentava ao meu lado
- Da última vez que estiveste aqui e eu pensei que me ias beijar mas deixaste-me na mão
- Já não me lembrava disso
- Mas eu lembro-me muito bem
- Não era para ficares tão chateada, era só uma brincadeira
- Isto também foi uma brincadeira – fiz-lhe uma careta, ele puxou-me pelas pernas para junto dele, agarrou-me a cara com uma mão
- Tu irritas-me miúda – deu-me um beijo nos lábios e eu soltei uma gargalhada – estás-te a rir? – acenei que sim e ele começou a fazer-me cócegas
- É tão divertido brincar contigo
- Eu digo-te o divertido
- Sabes o que é divertido?
- O quê?
- Vires-me ajudar a fazer o jantar – levantei-me, puxei-o por uma mão e fomos para a cozinha.

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(Magda)

            Depois de falar com a minha amiga e ir arrumar umas coisas, sentei-me no sofá com o portátil e mandei mensagem ao Nico

Para: Nico
- Vai ao skype :p

            Nem passados dois minutos estava-me a ligar, coloquei os fones e atendi
- Bons olhos o vejam
- Pérdon chinita, pero esta semana está a ser de doidos
- Muito trabalho?
- Sim, esta altura do ano é o caos. Jogos atrás de jogos, treinos todos os dias e para ajudar foi a palestra de ontem na minha tarde livre
- Como correu?
- Correu bem, estava com algum receio de falar para muita gente mas depois o discurso fluiu
- Fizeram-te muitas perguntas?
- Sim e algumas é que eram escusadas
- Ui o que perguntaram?
- Se eu tinha namorada
- Que respondeste?
- O que achas?
- Que não, como é óbvio
- Achas mesmo isso?
- Não, estou a brincar. Mas disseste que tinhas?
- Sim, não disse mentira nenhuma
- E não choveram perguntas? Quem é sortuda? – fiz-lhe uma careta
- Noooo – riu-se - nenhuma pergunta, o que me surpreendeu
- Também estavas ali para falar da tua vida profissional não da pessoal
- Exato. E tu como andas? Como vai a faculdade?
- Vai bem, ontem tive um jantar com os meus colegas de curso
- Foi divertido? Gostaste?
- Sim, foi mais divertido que estava à espera. Como foram algumas pessoas que não conhecia tinha receio que ficasse um ambiente constrangedor mas não, demo-nos todos bem e rimos bastante
- Ainda bem, assim sempre te distrais das aulas chatas
- Sim e tenho a oportunidade de conhecer pessoas novas
- Olha para a semana vou aí a cima
- Fico à sua espera, tenho saudades tuas!
- Terça ou quarta estamos juntos, ok?
- Ok... – “ok?? até parece que não tem saudades” pensei
- Olha vou jantar para depois jogar um pouco e ir dormir
- Está bem, porta-te bem
- Tu também, beijinho
- Xau – desliguei, fiquei pelo pc até à hora do jantar, a cuscar as redes sociais e a preparar algumas coisas para os escuteiros.

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(Carolina)

            Enquanto jantamos, o Lichi contou-me como tinha corrido bem o jantar com o Salvio, que se tinham entendido, que para já não iam ficar amigos como antes mas iriam construir a amizade. Fiquei super feliz ao saber disso, finalmente as coisas começavam a correr bem e a endireitar-se. Quando terminamos, arrumamos tudo e depois sentamo-nos no sofá a ver tv. Pus-me a fazer zapping para ver o que estava a dar de interessante, parei no canal Hollywood, reconheci o filme e comecei a rir.
- Estás-te a rir de quê? – perguntou ele
- Não sabes que filme é este?
- No
- OMD, é o “Amigos Coloridos” nunca viste? – ele acenou com a cabeça negativamente – então vamos vê-lo – puxei o filme atrás e ficamos a ver
             Depois da primeira cena em que o casal principal se envolve, o Lisandro coloca o braço direito à volta dos meus ombros e puxa-me para junto dele. Olhei para ele, ele sorriu e deu-me um beijo na testa, e eu encostei a cabeça no ombro dele.
- No final do filme fazes as pazes comigo? – olhei para ele que me sorria atrevidamente
- Vou pensar no teu caso – deitei a cabeça no colo e coloquei as pernas em cima do sofá.
- Então vai para o chão – empurrou-me e antes que desse com o cu no chão, agarrei-me a ele e ele veio junto comigo. Caiu em cima de mim, estávamos olhos nos olhos e as faíscas já eram imensas, no segundo a seguir a minha respiração foi travada por um beijo dele que gerou outro beijo, e outros cada vez mais intensos. Até que fomos parar à cama, deixamos que o desejo entre nós falasse mais alto e acabamos por adormecer quando o cansaço era grande.
- Carolina? – chamava-me calmamente o Licha, abri um olho e já haviam demasiados raios de sol na casa. Virei-me para ele que continuava em tronco nu e sorri automaticamente ao ver aquele corpinho logo de manhã – tens que acordar, já são oito e um quarto – ao ouvir aquilo saltei
. São o quê? – peguei no telemóvel e marcava 8h15 – não me acordaste mais cedo porquê? Tenho que ir trabalhar – levantei-me ainda meia desorientada
- Só acordei agora, nenhum de nós meteu despertador
- Txiii pois foi e agora tenho que ser super rápida
- Vai tomar banho, enquanto preparo algo para comeres
- Obrigada – peguei em algo para vestir e fui para a casa de banho.
            Tomei um duche, vesti-me, tomei o pequeno-almoço, e depois de ter tudo pronto o Lisandro deixou-me no Colombo para não chegar tarde, apesar de não ser muito longe de casa. Despedi-me dele e fui trabalhar. Mais uma vez o dia passou a correr para minha felicidade , quando chegou a minha hora, fui ao balneário trocar de roupa e fui direta apanhar a camioneta para o Porto.

            

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

33º Capitulo - Posso falar contigo?

(Magda)

Como era um pouco cedo para jantar quando chegamos a casa do Nico, sentei-me no sofá a ver televisão, ele foi arrumar umas coisas e vestir algo mais confortável
- Também queres trocar de roupa? – perguntou ele
- Só se me emprestares os teus calções do Benfica – respondi na brincadeira
- Já vou buscar – virou costas
- Estou a brincar, não é preciso
- Agora vou buscar na mesma – foi ao quarto e voltou com os calções vermelhos na mão – toma
- Não era preciso mas pronto – fui à casa de banho – que tal estou?
- Quase pronta para entrar em campo
- Ia fazer melhor figura que muitos profissionais que aí andam
- Ui estou para ver isso
- Estás a desafiar-me?
- Si
- Então depois marcamos um joguinho para tu veres os meus dotes
- Fico à espera
- Mas agora a sério, como me ficam os calções? Gigantes?
- Um pouco mas continuas linda
- Tão simpático este rapaz - sentei-me ao lado dele
- Depois do jantar que queres fazer?
- Podes escolher que eu deixo
- Certeza?
- Claro que sim
- Então vamos jogar FIFA – fez-me uma careta
- Mas eu não sei jogar
- Eu ensino-te
- Ohhh assim vais ganhar sempre
- Eu deixo-te ganhar uma vez, vá
- Não preciso da tua boa vontade, eu safo-me sozinha – cruzei os braços como forma de amuo, ele agarrou-se a mim e começou a dar-me beijinhos. Passado um pouco, não resisti e sorri.
            Ficamos mais algum tempo ali pois estava a dar o episódio de um série que eu gosto imenso “Suburgatory”, basicamente é sobre a vida de uma rapariga que se muda com o pai para os subúrbios de Nova York, onde as pessoas dão imensa importância ao superficial e onde toda a gente parece ter vindo da mesma “fábrica” de tão idênticos que são. É muito divertida e adoro os comentários irónicos da Tessa (protagonista). Quando acabou fomos fazer o jantar, comemos, arrumamos a cozinha e fomos para a sala para jogar. Ele montou a playstation, explicou-me como aquilo se jogava, qual era o botão para correr, passar, chutar, fintar, e quando finalmente atinei, fomos jogar. Ele escolheu o Benfica e eu o Porto
- Olha o Herrera – disse quando consegui roubar-lhe a bola
- Conheces?
- Claro que sim, ele joga mesmo bem.
- Hmmm
- Olha para isto, já viste ele a fintar? É o melhor
- Pensei que eu é que era o teu jogador preferido
- E és mas temos que admitir que ele é bom
- Não disse que não
- Isso é tudo ciúmes?
- Nooo
- Disfarça agora
- E vai o quinto golo? – olhei para ele – gooooooolllllllllll
- Porra, assim não vale. Tu dominas isto
- Levaste uma abada
- Estou a jogar com o Porto estavas a espera do quê? – fiz-lhe uma careta e ele soltou uma gargalhada
- Adoro esse teu “amor” pelo Porto
- Amor? Eu não gosto deles e nunca vou gostar!
- Eu sinto o mesmo pelo River
- O eterno rival do Boca, né?
- Siii – apanhei-o distraído
- Golooooooo! Toma lá
- O golo de honra
- Já estou uma expert nisto – rimo-nos e continuamos a jogar.
            Antes de desligarmos para irmos dormir, pedi-lhe para tirarmos uma foto e postei no instagram

“Euzinha levando uma coça xD”

- Tens a certeza que não te importas de dormir comigo? – perguntou ele quando se ia deitar ao meu lado na cama
- Já te disse que não
- Ok só não quero que te sintas mal
- Se me sentisse desconfortável dizia – encostei-me a ele e pousei a cabeça no seu peito – e no final de contas já dormi com outros rapazes
- Ahhh? Isso quer dizer que tu já não és … – olhou para mim
- Não sou o quê?
- Virgem
- Porquê? Até parece que tu és? - fiquei a olhar muito séria para ele, mas nao consegui aguentar muito tempo e desmanchei-me a rir ao ver a sua cara de incredulidade - eu sou virgem mas nos escuteiros já partilhei a tenda com rapazes e não houve qualquer problema.
- Ok, agora entendi. Sobre a tua pergunta… - interrompi-o
- Nico, eu não estou à espera que ainda sejas virgem e sobre o teu passado não te vou estar a fazer perguntas, tu quando quiseres falar e se achares que queres partilhar, então estarei aqui para te ouvir.
- Sabes que te adoro, chinita?
- Claro que sim – disse assertivamente
- Convencida - com calma colocou o seu braço a minha volta, ficando com as minhas costas junto a ele e demos as mãos –  diz-me e assim já dormiste?
- Assim será a primeira vez – deu-me um beijo na bochecha, eu sorri, ficamos a conversar mais um pouco até eu adormecer

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(Carolina)

            Quando cheguei a casa a primeira coisa que fiz foi ir ao frigorífico ver se tinha alguma coisa para o jantar.
- Bolas – fechei a porta do frigorífico
- Que foi? – perguntou o Licha
- Estamos com um pequeno problema, não fui às compras ontem e não há nada para comer
- Encomenda-se comida
- Não me apetece pizza
- Ninguém falou em pizza
- Então?
- Conheço um restaurante chinês que leva a casa
- Achas que vou comer comida chinesa? Comer perninhas de rã? Que nojo! – ele riu-se
- Eu nunca comi isso e já fui lá várias vezes. Confias em mim?
- Não sei
- Anda lá, vais gostar
- Ok pede lá mas ai de ti que depois tenha que pedir uma pizza
- Não vais ter que o fazer. Dá-me só a morada para depois dizer ao senhor – apontei num papel, ele ligou, fez a encomenda, enquanto esperamos pusemos a mesa e vimos tv.
            Passado um pouco, mais de meia hora, os senhores vieram entregar a comida, eu paguei e fomos para a mesa.
- O que é me vais dar para comer? – perguntei eu ao olhar para aquilo
- Pedi arroz chinês, frango frito com amêndoas e frango com molho de laranja
- Arroz xauxau – ele riu-se – mas os chineses comem frango na terra deles?
- Comem trenga, são pessoas normais como nós
- I know, vamos lá provar isto – gostei imenso do frango frito, o resto também era bom mas o frango com as amêndoas estava delicioso
- Estou a ver que gostaste
- Tenho que admitir que não é assim tão mau como achava
- Vês eu disse-te
- Tinhas razão, sim senhora agora, como prémio vais lavar a louça – bati palmas
- Eiiii isso não é justo, eu sou o convidado
- Na minha terra os convidados ajudam
- Não me convides mais para vir a tua casa, então
- Vais morrer por lavar uns pratinhos? – acenou que sim – és mesmo rapaz, morre por fazer alguma coisa – levantei-me – vou lavar isto senão ninguém o faz
- Estava a brincar, eu lavo
- Agora não quero – peguei nos pratos, pousei na banca e quando me virei ele pegou em mim pela cintura e sentou-me na mesa
- Ficas aqui enquanto lavo a louça e não vale reclamar – deu-me um beijo na testa
- Já te disse que és um estúpido?
- Hoje ainda não – fez-me uma careta e começou a lavar a louça enquanto conversávamos.
            Depois de ele terminar, sentamo-nos no sofá para escolher um filme para ver, enquanto isso ele pegou no HappyMeal e pôs-se a brincar com ele, fez-lhe festas até que o coelho decidiu fazer xixi em cima dele e eu só me ri
- Não te rias não tem piada nenhuma, ainda por cima não tenho outra camisola para vestir – ele levantou-se pousando o Happy no chão
- Tudo se arranja, tira essa para eu lavar e amanhã já a podes vestir – ele tirou-a
- Isto foi um pretexto para me veres de tronco nu? – perguntou ele agarrando-me pela cintura
- Se eu quisesse já a tinha tirado – empurrei-o
- Isso é que é confiança
- Estou enganada? – olhei para ele que se preparava para me agarrar novamente – ficas aí no sofázinho a escolher o raio do filme para vermos enquanto lavo isto – primeiro fui lhe buscar uma t-shirt para ele vestir, depois fui lavar a dele e quando voltei a sentar-me ele já tinha escolhido o filme – a sério que escolheste este filme?
- Não gostas?
- Eu adoro, já vi imensas vezes apesar de achar algumas coisas absurdas
- Também gosto bastante, então quando Angelina Jolie aparece nua
- Ela é bem sexy e aquela tatuagem nas costas mata-me
- Isso é bom ou mau?
- Bom, adoro a tatuagem dela, acho que lhe dá um toque mesmo sensual
- Ahhh vamos masé ver o filme – liguei o portátil à tv, fui buscar uma manta para nos tapar, pois estava frio, encostei-me a ele e coloquei o filme “Wanted” a dar.
            Durante o filme fomos comentando o que mais gostávamos e menos, basicamente achávamos os dois o mesmo que alguns efeitos estavam exagerados e mal feitos. Quando o filme acabou, arrumamos tudo e fomos para cama.
- Estás a vestir o pijama para me dares trabalho a tirá-lo? – perguntou ele
- Hoje ninguém vai ficar despido nesta casa
- Ohhhh
- Oh nada, combinamos que hoje ficavas cá só para me fazeres companhia – ele aproximou-se – como amigo não inventes
- Eu sei, estou a pegar contigo toto – deitamo-nos na cama
- Espero que os outros dois aproveitem bem
- Nem acredito que planeaste isto tudo só para eles passarem mais tempo juntos
- Eles merecem e ela amanhã já vai embora por isso
- És mesmo boa amiga – puxou-me para junto dele, pousei a cabeça na barriga dele e enquanto ele me fazia festas na cabeça, eu dava uma vista de olhos nas redes sociais
- Olha para esta foto – mostrei-lhe a foto da minha amiga – ele já a despiu e tudo – rimo-nos
- Mas ele está muito vestido
- Pois deve estar com frio como sempre – peguei a deixa e comentei a foto “e ele sempre com frio xD”
- És demais
- I know i know mas vamos dormir que eu já tenho sono
- A señorita é que manda – ficamos em conchinha e pouco depois adormeci
            Acordei com o meu telemóvel a tocar, era a minha amiga a perguntar se já estávamos acordados porque daqui a 45 minutos ia passar para nos buscar. Olhei para as horas e já passava das dez e o outro continuava a dormir tranquilamente, levantei-me devagar para ele não dar fé, preparei umas torradas e café com leite, coloquei tudo num tabuleiro. Pousei-o no chão e saltei para cima dele.
- Lisandro Ezequiel, está na hora do senhor acordar! – ele abriu um olho mas imediatamente voltou a fechar, tapou-se e eu destapei – anda lá, aqui a tua amiga preparou o pequeno-almoço para o menino e tudo – olhou para mim e num piscar de olhos as nossas posições mudaram. Eu deitada na cama, ele por cima de mim fazendo-me cócegas até eu não aguentar mais, depois prendeu-me os braços contra a cama com as suas mãos de maneira a não conseguir tirar. Começou a dar-me beijos no pescoço, pequenas mordidelas que faziam cócegas e parou a olhar para mim, parecia que estávamos a jogar ao jogo do “sério”. Ele começou a aproximar os lábios dos meus mantendo sempre o olhar fixo, aquele olhar sedutor, intenso, desafiador. Se ele soubesse a vontade que eu tinha de o beijar, de o agarrar, de me perder naqueles abdominais, de deixar o “amiga” de lado, acho que não se punha com estes joguinhos.
- Pronto, a minha vingança terminou – ao ouvir aquilo pensei “mas o gajo está a brincar comigo? Está a testar o meu limite? Ai que estúpido!!! Ele vai ver o que é bom para a tosse”. Ele saiu de cima de mim, sentei-me, ele pegou no tabuleiro, colocou-o em cima da cama, deu-me uma caneca e ficou com outra. Disse-lhe que a Magda tinha ligado a avisar que nos ia buscar, combinamos que enquanto eu ia tomar banho e arranjar-me ele ia arrumar as coisas assim não perdíamos muito tempo.
            O casal chegou à hora prevista, entraram em minha casa para ela tomar banho e trocar de roupa e depois fomos a casa do Licha para ele fazer o mesmo. Hoje íamos todos almoçar a casa do Maxi, almoço de Páscoa entre amigos. A Magda estava um bocado receosa de ir por causa da última conversa com a Anna não ter corrido da melhor maneira, não queria que ela começasse com o mesmo discurso, uma vez que iam lá estar os dois. Eu aconselhei-a a ter calma e deixar as coisas rolarem, para aproveitar bem o tempo para estar com o Nico e brincar com as crianças que pelo que contou adoraram-na. Quando lá chegamos quem nos abriu a porta foram o Maxi e Anna e imediatamente vieram os filhos a correr, os rapazes agarram-se ao Gaitán e a Belém abraçou a minha amiga. Fizeram-se as apresentações pois eles não me conheciam nem eu a eles, o Tiago agarrou-me na mão
- Vem brincar connosco, o tio Salvio está lá fora à nossa espera – mal ouvi isto, olhei para o Lisandro que estava um pouco desnorteado e sussurrei-lhe
- Se quiseres ir embora, vou contigo – os pombinhos como sabiam da situação
- Vamos lá brincar – disse o Gaitán piscando-nos o olho – eles já lá vão ter
- Não demorem muito para começarmos o jogo, tá bem? – perguntou o Tiago
- Dois minutos e estou lá fora – respondi e eles foram – Lisandro queres ir embora?
- Nooo, não vou fugir. Já somos adultos e temos que saber lidar com esta situação, temos amigos em comum e não podemos deixar de estar com eles por causa disto – abracei-o
- É assim mesmo, meu amigo! – ele abraçou-me com força – tamu juntos – olhei para ele piscando o olho, ele sorriu
- Obrigada por estares sempre aqui, és mesmo incrível – deu-me um beijo na bochecha – gracias bombona, gosto muito de ti
- Já te disse que és um estúpido muito fofo? – ele soltou uma gargalhada
- Siii, todos los dias – rimo-nos e fomos ter com os outros ao jardim.
            Quando o vi, congelei, não sabia o que esperar daquele encontro, podia correr tudo bem ou tudo muito mal. Vou rezar para que ambos sejam adultos e não se passem. Respirei fundo, sorri e fui cumprimentá-lo, logo atrás de mim veio o Licha. Estavam frente a frente pela primeira vez fora do local de trabalho, olharam-se e após algum silêncio cumprimentaram-se com um aperto de mão e eu pude respirar de alívio.
- Então quais são as equipas? – perguntei eu
- Tu, a tia e a Belém contra nós rapazes – respondeu o Tiago
- Assim não é justo
- É o que estou a tentar dizer – repostou a Magda
- O tio Licha joga convosco – disse o puto
- Na, nada disso. Ficamos com o Nico
- Ok mas a bola começa nossa – pegou na bola e começou o jogo
            O jogo correu bem, foi super divertido, os gémeos estão sempre a fazer palhaçadas, todos estavam descontraídos, até os rapazes estavam a dar-se bem e isso deixo-me feliz, ver os meus dois “meninos” bem foi tão agradável, senti que a amizade deles podia voltar ao normal, senti que eles por momentos tinham esquecido tudo e eram aqueles amigos de antes. Mas nem tudo foi bom porque quem ganhou o jogo foi os rapazes depois de tanta batotice, e eu nem a feijões gosto de perder. Todas nós estávamos chateadas, então combinamos que íamos ter com a Anna à cozinha para ajudá-la no que fosse preciso e eles que ficassem sozinhos. Estava a passar a porta quando ouço
- Carolina? Posso falar contigo? – olhei para trás, era o Toto e voltei olhar para a Magda
- Fala com ele – sussurrou-me – vamos Belém – seguiram e eu sentei-me nas cadeiras que tinha junto à porta, com ele
- Precisa de alguma coisa? – perguntei-lhe
- Primeiro trata-me por tu e segundo só queria falar contigo porque o Nico contou-me o que fizeste por mim – engoli a seco e pensei “que raio o Osvaldo lhe foi dizer? Ele nem sequer me disse que falou com o Salvio! Ai onde ele me meteu, respira fundo”
- O que é que ele te disse?
- Disse que tu te chateaste com o Lisandro por minha causa, que insiste com ele para me contares a verdade – olhou para mim, eu estava super envergonhada – eu queria agradecer-te por isso, por quereres ajudar.
- Não tens que agradecer, eu na verdade não ajudei em nada pelo contrário – olhei para o chão – eu estraguei a vossa amizade, eu estraguei o teu casamento, eu estraguei tudo – não consegui controlar e as lágrimas começaram a cair – desculpa por ser tão teimosa, por eu achar que o mais correto seja a verdade, por eu ser uma intrometida, por eu me preocupar de mais com os outros, por eu ser uma grande estúpida e estragar a tua vida. Desculpa-me por favor! – eu não conseguia parar de chorar, este assunto mexe demasiado comigo e ele agarrou-me a mão para me tentar acalmar
- Carol … - não o deixei terminar
- Por favor deixa-me acabar – tentei acalmar-me – se havia pessoa que eu não queria que saísse magoada eras tu, eu só queria que tu soubesses de tudo, que fossem honestos contigo: tu mereces isso! És um grande jogador, um pai maravilhoso, um marido exemplar, um bom filho, excelente irmão, és um amigo espetacular, és um exemplo para todos, és um exemplo para mim todos os santos dias, não tens noção do orgulho que tenho em ti e eu só fiz asneiras, estraguei a tua vida! Não me perdoo por isso! – coloquei as mãos à frente da cara e desatei a chorar, só queria desaparecer dali
- Tu não fizeste nada de mal, não tens que pedir desculpa por nada! Eu no teu lugar fazia exatamente o mesmo, agiria igual porque eu preservo muito a lealdade e honestidade – fez uma pausa e por momentos as lágrimas pararam – e foi isso mesmo que tu exigiste, por isso é que te queria agradecer – não sei onde arranjei forças para sacar um sorriso, aquelas palavras valiam ouro para mim – não tens que te sentir culpada de nada – olhou para mim e sorriu – e se ficas mais descansada eu e a Magali já conversamos e estamos bem apesar de ela continuar em Madrid
- A sério? – ele acenou que sim e com o instinto abracei-o, não havia noticia melhor para me animar, foi tão bom ouvir que eles se entenderam, que o casamento não está em risco, que a família Salvio-Aravena não ia terminar. Quando caí em mim, soltei-o – desculpa não devia ter feito isto – ele sorriu
- Até que soube bem – rimo-nos
- E sobre o vosso castigo, já trataram de alguma coisa?
- No
- Quando têm que apresentar isso aos mais novos?
- Quarta mas ainda não falamos
- Acho que está na altura – com o olhar apontei na direção do Licha que estava sentado no jardim a brincar com o Tomás
- Achas boa ideia?
- Senão tentares não saberás – pisquei-lhe o olho, ele sorriu e levantou-se mas quando se dirigia na direção dele aparece a Belém
- O almoço está pronto, vamos para a mesa – gritou ela, ele olhou para mim e nós rimo-nos
- Tio, estás a rir do quê? – perguntou o Tiago
- A Carolina contou uma piada
- Quero ouvir, eu gosto de piadas – soltei uma gargalhada, o puto é mesmo engraçado
- Numa feira em Lisboa, há um bicho muito feio que anda sempre com um leitãozinho, um porquinho pequenino sabes? – ele acenou que sim, eu peguei nele coloquei-o no ombro e comecei a dizer – olha um leitãozinho, alguém quer comprar um leitãozinho – enquanto lhe fazia cócegas – ele é tão saboroso e dá um bom presuntinho – ele ria-se, quando estávamos na sala pousei-o no chão – toca a ir lavar as mãos leitãozinho – dei-lhe uma palmada no rabo e ele foi num pé e voltou noutro. Sentamo-nos pela seguinte disposição.


- Como correu o trabalho na sexta, Carol? – perguntou-me a Anna
- Mas ela está de férias desde quarta – disse o Lisandro e imediatamente dei-lhe uma cotovelada para se calar – auuu
- Tá calado estúpido – disse-lhe entre dentes
- Mas tiveste de férias ou a trabalhar? – perguntou a mulher do Maxi e olhei para a minha amiga para me ajudar
- Estive em casa quarta e quinta, na sexta trabalhei de manhã e de tarde fiquei em casa
- Assim fomos passear e aproveitamos, como só fico cá até ao fim do dia de hoje - disse a Magda
- Fazem bem aproveitar o pouco tempo juntas – disse a Anna, eu só pensava “ufa safei-me desta mas o Licha vai-me ouvir” – gostaram do jantar?
- Sim, estava tudo ótimo e todas eram bastante simpáticas – respondeu a Magda
- Estava tudo delicioso e a decoração fantástica como já tinha dito no jantar mas houve algumas das esposas e namoradas que me surpreenderam
- A sério? Mas pela positiva ou negativa? – perguntou a Anna
- Positivamente, por exemplo sempre achei a Susana um pouco arrogante e foi das que mais gostei de falar, ela e a Karina. A mulher do Artur é mesmo simpática, divertida e querida.
- Karina é um amor de pessoa
- A Gabriela também é muito afável e nunca fui muito à bola com ela – disse a minha amiga e continuamos a conversar enquanto almoçávamos.

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(Nico)

            Estávamos na sobremesa quando senti o meu telemóvel a tocar, tirei do bolso para ver o que era, poderia ser algo da minha família. Era uma notificação de mensagem no whatsapp, abri e tinha a seguinte mensagem

De: Rocio
- Este es un momento en el que todos debemos recordar cosas tan importantes como la amistad, la humildad, la bondad y hermandad. Cosas como la familia o los amigos, merecen que se celebre en todo momento, ya que es importante recordar que la Pascua es más que la fe en la palabra de Dios y en la resurrección de Jesús. Celebre la bondad, el amor y la humildad en todo momento de esta Pascua que tienen para ofrecer. Pascua es sinónimo de renacimiento, renovación, y es el momento más propicio para reflexionar y hacer resucitar los sentimientos más nobles. favoreciendo un cambio de actitud que vá de encuentro de un mundo mejor. ¡Feliz Pascua! Beso enorme :)

            Depois de ler esta mensagem fixei perplexo, não estava nada à espera de receber isto, fiquei mesmo sem saber o que fazer, o que dizer.
- Está tudo bem? – perguntou-me a Magda
- Ah… - olhei para ela – si si
- Certeza? Ficaste muito estranho depois que o telemóvel tocou
- Mas está tudo bem a sério – sorri para tentar disfarçar e dei-lhe um beijo na testa
- Espero bem que sim – sorriu e continuei a conversar com os rapazes.
            Passado algum tempo as meninas levantaram e começaram a levar a louça para a cozinha e nós ajudamos para ser mais rápido. Eu, Maxi, Toto e Licha sentamo-nos na mesa a conversar enquanto as meninas e as crianças foram para o sofá. Aproveitei que os outros dois rapazes estavam a conversar e a entenderem-se, dei sinal ao Maxi e fomos para o jardim falar.
- O que se passa Zurdo? – perguntou ele – e não digas nada
- Isto – dei-lhe o telemóvel para a mão e ele leu a mensagem
- O que tem? É só uma mensagem
- Só uma mensagem? É uma mensagem da Rocio, que há mais de um ano que não me manda nada! Mais de um ano em silêncio e depois manda-me esta mensagem? Joder!! – meti as mãos à cabeça – não sei o que pensar, não sei o que dizer, se hei de responder ou não. Ela bloqueou-me o cérebro, Maxi!
- Calma, Nico! É só uma mensagem de “¡Feliz Pascua!” não há mal nenhum, agradeces e desejas boa pascoa para ela também, simples.
- Simples? Tu sabes perfeitamente o quanto sofri por ela, o quanto eu amei aquela rapariga, o quanto me dediquei a essa relação e do dia para a noite ela deixa-me como se tivesse sido uma coisa de uma noite só!
- Eu sei mas isso faz parte do passado e agora estás muito bem com a Magda, não estás?
- Estou muito feliz com ela e cada vez gosto mais dela
- Então pronto agarra-te a isso – sorri - Posso fazer uma pergunta?
- Si
- Já contaste esta história à Magda?
- No
- Estás a espera do quê?
- Do momento certo
- Momento certo é agora enquanto se estão a conhecer, no início para ganharem confiança e fortalecerem a relação. E ela precisa saber o que já sofreste para nem sequer pensar em fazer o mesmo
- Yo sé mas ainda não me sinto confortável
- Não adies muito mais, ainda corres o risco de ela saber por terceiros e isso vai ser mau
- Gracias por me ayudares sempre
- Não tens que agradecer, já sabes que estou aqui para te ajudar – apertamos as mãos – e agora responde a essa tipa para ela ver que és indiferente ao que se passou, que és superior – peguei no telemóvel

Para: Rocio
- ¡Feliz Pascua!

            Guardei o telefone, fomos para dentro, o Lisandro e Salvio continuavam a conversar civilizadamente o que me agradava imenso, sinal que se tinham entendido, as meninas continuavam a brincar com os miúdos.
- Resolveram tudo? – perguntei aos rapazes pousando a mão em cima do ombro do Licha
- Acho que sim, pelo menos o nosso castigo já está tratado
- Os miúdos vão adorar, olha tu podias aparecer que dizes? – perguntou-me o Toto
- Para falar? – acenaram que sim – dizer o quê?
- Falavas do teu percurso para chegar à primeira liga na Argentina, tu tiveste muito tempo sem jogar em miúdo, não é verdade?
- Si, 6/7 anos
- Perfeito, assim são três visões diferentes, três percursos distintos. Que achas Licha?
- Acho muito bem – respondeu ele
- Perfeito, quarta contamos contigo – levantou-se – Maxi e Anna, muito obrigada pelo almoço e por me receberem em vossa casa mas tenho que ir, vou buscar o Eze ao aeroporto que vem passar cá uns dias
- Já sabes que és sempre bem-vindo, tu e a tua família – disse a Anna cumprimentando-o – para a próxima juntamos toda a gente
- Combinado mas desta vez é lá em casa – respondeu ele, despediu-se de todos e dirigiu-se para a porta mas voltou para trás – Carol? – ela olhou – depois mando pelo Lisandro dois bilhetes para o próximo jogo na Luz, faço questão que estejas lá – piscou-lhe o olho e nem a deixou responder virou costas, ela levantou-se, foi a correr até ele
- Espera – gritou ela, ele olhou para trás e ela abraçou-o - Obrigada, obrigada, obrigada Salvio!
- De nada – sorriu e foi embora
- Alguém ganhou o dia – disse a Magda
- Não sabes o quanto
- Não está na altura de irmos? – perguntei – alguém tem que fazer a mala e fazer uma viagem para o Porto
- É verdade, já me esquecia disso – resmungou a chinita
            Levantamo-nos, despedimo-nos da família Pereira e fomos para casa da Carol para a Magda fazer a mala e eu me despedir dela. Quando chegou a casa rapidamente fez a mala pois só lhe faltava colocar umas últimas coisas.
- Estou pronta – disse ela
- Faz boa viagem e vai dando noticias, sabes que não fico descansada até me ligares do telefone do teu pai – avisou a Carolina, abraçaram-se – vou ter saudades tuas mas sábado já estou no Porto
- Vais? Mas não vais ver o jogo?
- Sem ti? Estás é doida e além do mais tenho que ir aos escuteiros
- Ohhh tão querida, também vou ter saudades destes dias. E obrigada por me receberes aqui
- Já sabes, a porta está sempre aberta
- Sr. Lisandro, toma conta dela! – apontou para a amiga e cumprimentou-o – ela é mais maluca que tu como já reparaste
- Yo sé – respondeu ele
- Vamos? – perguntei e ela acenou que sim – quando for para descer dou-te um toque – avisei o Licha.
Peguei na mala dela, descemos, colocamos as coisas dela na bagageira do carro dela e depois ela encostou-se à porta do carro, eu agarrei-a pela cintura e dei-lhe um ligeiro beijo
- Vou ter saudades
- Também vou mas vai passar depressa – respondeu ela
- Yo sé e também vamos falando
- Sim, quero saber de tudo. Como andam os treinos, como correu a palestra, como anda o Licha e a minha amiga, como ficaram as coisas entre o Lisandro e Salvio. Ah e claro, quero saber como tu andas – abraçou-me
- Falamos por mensagens, skype, cartas, sinais de fumos, é só escolheres – rimo-nos
- Porta-te bem – deu-me um beijinho mas eu não resisti e dei-lhe um beijo mais intenso, demorado, apaixonado, caliente que ficamos ambos sem folego.
- Faz boa viagem e porta-te bem – ela entrou no carro e seguiu viagem.
            Dei um toque ao Lisandro para ele descer para irmos para casa e enquanto esperava publiquei a seguinte foto no instagram

“Eres a quien quiero en las noches soñandote
Levantarme en las mañanas abrazándote <3”
  
          Passado segundos o meu amigo chegou e fomos embora.