quarta-feira, 1 de abril de 2015

15º Capítulo - ele não resistiu

(Magda)

            Acordei com a luz do sol a bater-me na cara, esqueci-me de fechar as precianas quando me deitei. Peguei no telemóvel para ver as horas, marcavam 9h39 e tinha duas mensagens por ler.
            De: Nico:
- Eu dou o recado ;) só enquanto fã? Boa noite ** hasta ;)
- Buenos dias Chica, como estás? Dormiste bem? Se fosse aí ao Porto, aceitarias almoçar comigo? **
            Eram 8h30 quando ele mandou a última mensagem.
            Para: Nico
- Bons dias caro Nicolas, dormi muito bem, obrigada. E tu como dormiste? O convite ainda está de pé? :b **
            Fui até à cozinha buscar uma tijela de cereais e sentei-me no sofá a ver se dava algo de interessante na tv.
            De: Nico
- Eu também dormi bem ;) claro que ainda está de pé, aceitas? **
            Para: Nico
- Mas tu vens cá?

- Já estou a caminho :b

- Tu és doido :b a que horas chegas?

- Ai é isso que achas de mim? :o às 13h passo aí em tua casa, quer dizer ainda moras no mesmo sítio, certo?

- Que me lembre sim moro ;) Ainda te recordas do caminho até cá? :o tu sabes o que acho sobre ti ;)

- Tenho boa memória :b só da parte profissional, falta a pessoal :b

- Um dia saberás :b bem faz boa viagem e não tenhas nenhum acidente **

- Posso saber logo ao almoço? :b até já **´

            Só depois de combinar as coisas com o Gaitán é que perguntei aos meus pais se podia ir almoçar e eles deixaram. Como sempre a minha mãe disse que não era boa idéia, que eu não devia ir, que era perigoso, mas o meu pai lá a convenceu. Mais perto da hora combinada, fui tomar banho e vesti uns jeans, uma sweat azul-marinho e uma camisa de ganga.


Marcavam 12h59 no relógio quando recebi a seguinte mensagem:
De: Nico
- Llegué ;) estás pronta? **
            Para: Nico
- Já desço **
            Peguei na minha carteira, despedi-me dos meus pais e saí de casa.
- Magda? – gritou a minha mãe quando já estava a descer as escadas do prédio
- Sim…
- Esqueceste-te da prenda – voltei para trás.
- Obrigada - peguei na saca e desci as escadas
            Quando cheguei à porta do prédio, mal me viu saiu logo do seu Audi Q5 preto mate que estava parado com os quatro piscas. Fogo como aquele carro era lindo!!! Ele estava de jeans e uma sweat da adidas. 


- Hola – disse ele
- Oi - aproximei-me e cumprimentei-o com dois beijinhos – antes que me esqueça, isto é para ti – dei-lhe a saca para a mão.
- Muito obrigado, mas não era preciso gastares dinheiro comigo.
- Não é que mereças – fiz uma careta - mas vá espero que gostes – ele abriu a saca delicadamente (se fosse eu já a tinha rasgado) e tirou de lá a seguinte camisola


- É mesmo gira, obrigada mais uma vez
- Vais usá-la, não vais?
- Claro que vou e já reparei que usas a prenda que te dei – olhei para o pulso e não consegui evitar sorrir.
- Sim, eu gostei bastante dele e ainda por cima combinava com o resto da roupa – olhei para ele e sorri novamente – e tu sempre com algo da adidas
- Não pode falhar, gosto muito desta marca
- Já reparei, apareces sempre nas fotos com algo deles, mas olha vamos?
- Sim, aconselhas algum sítio?
- Depende do que quiseres comer.
- Francesinha?
- Já alguma vez comeste?
- Só em Lisboa
- Então não provaste uma decente – voltei a fazer uma careta - eu conheço um local onde podemos ir – entramos no carro e fomos.
            Durante a curta viagem até ao restaurante, que ficava perto da Praça Carlos Alberto, estivemos a falar do jogo de ontem e a reação da Carolina, ele contou-me sobre a viagem à Argentina e ainda estivemos a cantar algumas músicas que passaram no rádio. Foram dez minutos bem descontraídos. Chegamos ao Restaurante O Golfinho, um sítio pequeno e acolhedor, sentámo-nos, pedi duas francesinhas com batata e duas coca-colas e continuamos a conversar.
- Devo-te um pedido de desculpas - disse ele.
- Oh esquece lá isso, já passou
- Não, eu tive uma atitude incorreta no hospital e ia estragando tudo.
- Estás desculpado, mas não voltes a repetir a brincadeira
- Ok, como tens passado os teus dias?
- Estudar para os exames, passear com os meus amigos e ir visitar a Carolina. E tu?
- Treinar e aproveitar as folgas para passear e relaxar
- Deves passar a vida na casa do Maxi, não? – rimo-nos
- Não mas vou lá de vez enquando. Ele tem a família dele, não gosto de incomodar
- Como nas fotos estás sempre com ele
- Ele é o meu melhor amigo aqui, é um grande apoio para mim. E a mulher dele também me acolheu muito bem.
- Vocês parecem inseparáveis, têm uma amizade muito bonita.
- Obrigado. Olha porque me chamaste de doido hoje de manhã?
- Então porque desperdiçaste um dia de folga para vires cá, de propósito.
- Não foi desperdício nenhum! Vim cá com todo o gosto e precisávamos de falar, estava desconfortável com a situação. E fiquei muito feliz por me mandares mensagem no final do jogo
- Como eu te disse, enquanto fã terás sempre o meu apoio independentemente de tudo. Tu és um excelente profissional, tens imenso talento, adoro ver-te jogar e ontem, mais uma vez, mostraste o que vales e marcaste um golo, o que me deixou ainda mais feliz.
- Muito obrigado pelo teu apoio, é sempre bom saber que existe alguém que gosta do nosso trabalho, é reconfortante. E é só como fã que terei o teu apoio? – olhou para mim e sorriu
- Não tens que agradecer, já te disse isso muitas vezes, só tens que continuar a fazer o teu trabalho – ri-me – e em relação à tua pergunta – o meu telemóvel começou a tocar – desculpa deixa-me ver quem é – peguei no telemóvel – André?
- Não é o André, mas sim o pai.
- Olá Sr. André, tudo bem?
- Vai estando e consigo?
- Está tudo bem. Deixe-me adivinhar, o André deixou outra vez o telemóvel em casa e ainda não apareceu desde ontem à noite?
- Não, antes fosse isso.
- Então o que se passa?
- Não sei como te hei-de dizer isto – fez uma pausa
- Está me a deixar preocupada
- O André, ontem foi de urgências para o hospital e - voltou a fazer-se silêncio – desculpa – respirou fundo – o André não resistiu – comecei a tremer, o coração a bater muito de pressa e em instantaneamente lágrimas começaram a cair-me pelo rosto.
- Mas o que se passou? – as lágrimas cada vez caíam mais depressa, o Nico levantou-se, agachou-se ao meu lado e perguntava o que se passava, eu não conseguia dizer nada só abanava a cabeça
- Ainda não sabemos, ele vai agora fazer a autópsia.
- Em que hospital está? Vou já para aí.
- Estamos no São João, mas não é preciso vires.
- Eu faço questão, dentro de quinze minutos estou aí – desliguei o telemóvel sem conseguir sequer me despedir em condições.
- O que se passa Magda? Estás-me a deixar preocupado, eu quero ajudar-te – eu abracei-o com força – fala comigo por favor – olhei para ele ainda a chorar.~
- Sabes o André? O meu amigo? – disse eu aos soluços.
- Sim, o que tem? – baixei a cabeça – por favor não chores, não gosto de te ver assim.
- Desculpa – tirei um lenço da carteira e limpei o rosto – como te estava tentar dizer, o André foi parar ao hospital ontem e a coisa foi grave, acabou por morrer – respirei fundo para tentar não deitar mais lágrimas, mas não consegui evitar, o Gaitán deu-me um abraço tão forte e tão reconfortável, senti-me mesmo bem, era isto que estava a precisar.
- Podes contar comigo para o que for preciso, ouviste? – olhei para ele e acenei com a cabeça ainda meia em lágrimas - Deixa-me ir pagar e vamos ao hospital – ele pagou a conta e fomos.
            No hospital, encontrámos o pai, mãe e irmão do meu amigo, eles estavam desolados. Eu comecei por pedir desculpa por não ter desligado a chamada em condições, e tentei perceber o que se passara para ele ter ido parar as urgências. O Ricardo contou-me que o irmão na noite passada tinha ido para a noite com os amigos e chegou muito mal. Depois de ouvir aquilo fiquei muito preocupada, pensei se não teria sido culpa daquele infeliz episódio da passagem de ano, de ter começado a experimentar drogas. Não queria acreditar que isso fosse a razão, se fosse iria sentir-me bastante culpada por não ter feito nada para o parar. Como não estava lá a fazer nada, e os resultados da autópsia só iriam sair no final do dia de amanhã, despedi-me deles e fui embora.
- Magda? – chamou-me uma voz familiar quando eu ia sair do hospital, olhei e era a mãe da Carolina - Já te ias embora? – Cumprimentei-a, apresentei o Nico e cumprimentaram-se
- Desculpe, esqueci-me completamente que tínhamos combinado vir falar com o médico
- Mas não vieste de lá agora?
- Não – baixei a cabeça para não tentar chorar – mas podemos ir lá agora – olhei para o Gaitán – importaste?
- Claro que não – respondeu ele e dirigimo-nos até ao quarto da minha amiga
- Está tudo bem Magda?
- Nem por isso – fiz uma pausa - Sabe o nosso amigo André?
- Sim, claro que sei. O que tem?
- Ele ontem a noite veio parar as urgências e não resistiu – antes que caísse alguma lágrima, respirei fundo
- O quê? Como é que isso aconteceu? – expliquei tudo até o médico aparecer. Este explicou-nos que o que se tinha passado no dia anterior com a Carolina foram sinais de que está a lutar para ficar consciente e que a qualquer momento pode acordar, mas não devíamos ficar com grandes expectativas porque às vezes isso pode demorar, depende muito do paciente.
            O Nico aproximou-se de mim e disse:
- Está a ficar um pouco tarde, tenho que ir embora.
- Já? Não podes ficar mais um pouco?
- Meia hora no máximo, é que ainda tenho uma viagem para fazer e amanhã tenho treino de manhã.
- Deixa-me só avisar a mãe da Carolina que vou levar-te ao carro e descemos – assim o fiz e fomos até ao carro – desculpa por te ter estragado o domingo.
- Não digas asneiras, gostei muito de passar o dia na tua companhia.
- Obrigada, eu também gostei de ter estado este tempo contigo, apesar de ter recebido esta má notícia.
- Pensa que nem tudo foi mau, tiveste o prazer da minha companhia e a tua amiga está a ficar boa.
- Convencido – ri-me.
- Ao menos consegui fazer-te rir.
- Pensei que o Lisandro viesse contigo, como da outra vez.
- Ele foi a Madrid com o Salvio, mas está sempre a perguntar se tenho notícias da tua amiga, se ela está melhor.
- Eles ficaram-se a dar bem, quando ela acordar temos que marcar um almoço ou jantar.
- Fico à espera – olhou para o relógio – desculpa não poder ficar contigo Magda, mas tenho mesmo de ir. Ficas bem?
- Dentro dos possíveis.
- Vamos falando está bem? – acenei que sim, ele aproximou-se e deu-me um abraço ao qual eu retribui.
- Obrigada por me ajudares, por me apoiares, por me aturares. Obrigada por tudo – ele sorriu, deu-me um beijo na testa
- Não tens que agradecer – entrou no carro – toma conta de ti.
- Quando chegares a Lisboa avisa, faz boa viagem – e lá arrancou com o carro. Eu subi até ao quarto da Carolina, precisava de falar com ela.
            Quando lá cheguei estava a mãe dela a pegar nas coisas para sair
- Ainda ficas?

- Sim, vou falar com ela um bocado e depois vou embora – despedi-me da senhora e entrei no quarto – olá amiga, quando acordas? Estou a precisar de ti – olhei para ela – ontem depois de sair daqui mandei mensagem ao Osvaldo a dar os parabéns pelo jogo, ele agradeceu e pediu desculpa pela atitude infantil dele. Hoje veio cá almoçar comigo – sorri espontaneamente só de me lembrar disto – ele não é mesmo fofo? E deu-me um abraço bem forte quando eu mais precisava – parecia que ainda sentia o abraço dele, era tão boa a sensação – eu preciso de te contar uma coisa, mas não sei se devo para teu bem – peguei na mão dela – espero que não reajas mal ao que te vou contar, tens de ser forte – olhei para ela, como estivesse a espera que ela disse “conta de uma vez” – o nosso amigo André teve um pequeno acidente e – limpei a lágrima que começava a cair pelo rosto – não aguentou, acabou por morrer – voltei a olhar para ela, que continuava sem reagir – ainda não se sabe as causas da morte, mas desconfio que seja por causa da droga. Se é por causa disso, vou-me sentir culpada para o resto da minha vida porque não fui uma boa amiga e não o ajudei a parar – as lágrimas começaram a cair – não me vou perdoar – nesse momento senti um aperto na mão bem forte, era a Carol – Carol? Estás me a ouvir? – cada vez apertava mais a minha mão – enfermeira, enfermeira! – a respiração dela era cada vez mais forte – tem calma amiga, o médico já vem aí – olhei para ela e nesse preciso momento ela abre os olhos

1 comentário:

  1. Olá

    Adorei ! A Carol tem de ficar calma , ela tem de ficar boa ...


    Próximo !


    Beijinhos


    Catarina

    ResponderEliminar