quinta-feira, 9 de abril de 2015

16º Capítulo - Sai do meu quarto já!!!

(Carolina)

            Estava ouvir muitas pessoas aos gritos, luzes que me encadeavam os olhos, sangue, era tudo muito esquisito. Parecia uma cena de terror, só queria acordar deste pesadelo horrível. Eu tentava abrir os olhos uma e outra vez, mas não conseguia. Começo a ouvir a Magda:
– Carol? Estás me a ouvir? – eu continuava a lutar para conseguir abrir os olhos – enfermeira, enfermeira! – comecei a ficar muito aflita, parecia que o meu coração ia saltar pela boca com tanta angústia – tem calma amiga, o médico já vem aí – fiz um último esforço e consegui. Abri os olhos.
Olhei para a Magda que estava um pouco diferente, ela sorriu-me. Alguma coisa se passava, eu não estava a reconhecer o local onde estava, aquele cheiro nauseabundo, tinha um tubo ligado ao meu nariz e outro na mão, máquinas à minha volta. Mas onde raio estou eu? Tentei-me levantar, mas não conseguia mexer, o que se passa comigo? Voltei a olhar para a minha amiga
- É tão bom voltar a ver-te acordada – disse ela
- Onde estou? O que se passa comigo? – perguntei eu aflita tentando mais uma vez levantar-me – porque não me consigo mexer? Magda, o que se passa comigo? – as lágrimas começaram a cair pelo rosto
- Amiga, calma! – ela olhou para o lado – enfermeira ainda bem que já chegou, ela acordou – aproximou-se uma senhora com uma bata branca
- Não me consigo mexer, o que se passa comigo? Alguém me pode dizer?
- Menina, tenha calma. O médico já vem analisá-la.
- Médico? O que faço eu numa cama de hospital? – olhei para a minha amiga – Magda, diz-me o que se passa por favor! O que me aconteceu? – as lágrimas continuavam a cair pela cara, eu não entendia o que se estava a passar! Porque estou eu enfiada numa cama de hospital?
- O médico já vem e já te explica tudo, tens é que tentar ficar calma para teu bem – disse a Magda agarrando a minha mão.
- É tão complicado me dizerem o que se passa? – disse eu meio aos berros – eu exijo saber o que se passa comigo!!
- Menina Carolina, ou acalma-se ou terei que lhe dar um calmante e aí vai demorar mais tempo a saber o que se passa consigo – ameaçou-me a enfermeira
- Quando é que o médico chega?
- Alguém me chamou? – disse um senhor com uma voz grossa mas ao mesmo tempo suave. Olhei em direção àquela voz e vi um homem charmoso de bata branca, cabelos morenos um pouco compridos – finalmente, a menina Carol acordou.
- Vai-me dizer logo o que se passa?
- Posso-lhe pedir que saia, por favor? – disse o médico em tão cordial para a Magda
- Ela fica – agarrei a mão da minha amiga com a pouca força que tinha
- Eu tenho que lhe fazer uns testes, umas perguntas e para isso preciso que a sua amiga saia. Prometo que serei breve – olhei para ele de lado e deixei a minha amiga ir
- Como vim aqui parar? O que se passa comigo?
- Carolina, tem que ficar calma para eu avaliar o seu estado. Eu prometo que lhe explico tudo mas tem que ficar relaxada.
- Ok… eu prometo.
- Linda menina! Vamos começar então – tirou uma pequena lanterna do bolso da bata, apontou primeiro para o olho direito e depois para o esquerdo – ótimo – pegou no estetoscópio que tinha à volta do pescoço, colocou-o junto ao meu peito para ouvir o batimento cardíaco. Parecia que sabia que eu ia dizer alguma coisa – Xiu, a Carolina prometeu. Estou quase a terminar – eu continuei calada e deixei-o terminar – o coração está um pouco acelerado, mas é normal visto que está nervosa – voltou a colocar o aparelho à volta do pescoço, pegou num bloco de notas que estava pousado na mesa junto à cama e sentou-se ao meu lado – Como se chama?
- Está a brincar comigo?
- Menina, faz parte do teste
- Carolina
- Que idade tem? E onde mora?
- 24 e moro no Porto
- O que faz da vida? Estuda ou trabalha?
- Desempregada e sou escuteira
- Muito bem… Qual é a última coisa que se lembra?
- Estava a chegar a casa depois de um dia de praia passado na companhia dos meus amigos. É verão há que aproveitar para apanhar sol
- Ok… Como se chamam os seus amigos?
- Magda, André, Olívia e Tomás
- A Carolina namora?
- Não, já não chega de perguntas?
- Só mais uma, com quem vive?
- Mãe, avó e os dois irmãos
- Muito bem – começou a escrever no seu bloco de notas
- Passei no teste? Já me pode dizer o que se passa?
- Carolina, a menina esteve em coma durante algum tempo devido a um acidente de carro – ele fez uma pausa, eu não conseguia reagir ao que estava a ouvir, estava em choque – como esteve algum tempo aqui parada nesta cama, os seus músculos estão presos, é por isso que não consegue mexer as pernas. Vai ter que fazer fisioterapia para recuperar os movimentos – eu sabia que tinha muitas perguntas para lhe fazer mas deixei-o falar até ao fim – para já é tudo, tem perguntas? – acenei que sim – então chute
- Eu… eu estive em coma? Tive um acidente de carro? Como? Quando? Quanto tempo estive a dormir? Quanto tempo vou demorar a recuperar? Alguém morreu no acidente? Os meus amigos estão bem? Quando posso ir embora daqui? – as perguntas começaram a sair disparadas da minha boca – o que se passou enquanto dormia? Não me esconda nada!
- Ei lá, isso é que é um interrogatório. Sim tiveste um acidente de carro quando vinhas… vinhas da praia com os teus amigos. Sim eles estão bem e ninguém morreu. Estiveste a dormir durante um mês. O tempo de recuperação vai depender de ti, mas Carol não podes pensar que ao fim de duas sessões vais sair a correr e a saltar, tens que ter calma com o processo e não querer saltar etapas, entendido? – acenei que sim – Vais ficar só mais esta noite em observação e se te portares bem no final da semana deixo-te ir embora. O que se passou enquanto dormias vou deixar para mais tarde te contar, acabaste de acordar de um grande choque, precisas de descansar
- Mas eu estou bem, pode contar tudo
- Nada disso – levantou-se – vai ter que descansar e amanhã conto-lhe o resto
- Posso falar com a Magda?
- Cinco minutos. Eu vou chamá-la – saiu do quarto

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Magda a conversar com o médico

- Então como ela reagiu?
- Ela está bem, depois de amanhã já poderá começar com a fisioterapia
- Fico mais descansada.
- Magda, mas há um pequeno problema. A última coisa que ela se lembra é de vir da praia para casa com os amigos. Não se lembra que trabalha em Lisboa, que tem namorado, que a vida dela mudou – fiquei completamente chocada com o que acabara de ouvir – quando entrar lá, ela vai bombardeá-la com perguntas, não lhe pode dizer nada. Amanhã eu vou chamar um colega meu, um psicólogo que falará com ela, isto tem que ser com calma não queremos que ela entre em choque.
- Eu compreendo. Ela não se lembra mesmo de nada? Nem que eu comecei a falar com o Nico?
- Nada, Magda, vai ter que ter muita paciência com a sua amiga
- E como vou contar isto ao Pedro? Que a namorada não se lembra dele…
- Acho melhor não lhe contar nada, por agora. Entre lá no quarto senão a Carol começa a desconfiar – ele virou costas e eu entrei no quarto

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- Magda, é tão bom voltar a ver-te
- Estás mais calma?
- Sim, desculpa se fui muito bruta
- Não tem mal, agora entendes porque não podia ser eu a contar?
- Sim. O que aconteceu enquanto estive a dormir?
- As aulas começaram, e tenho divido o meu tempo entre ir às aulas e vir aqui ver-te
- Mais nada aconteceu? A Olívia, André e Tomás.
- O Tomás continua no meu curso, a Olívia anda lá toda atarefada como sempre e o André… o André lá anda na vida dele
- Continua a sair todas as noites?
- Sim
- Podias marcar um jantar para sexta a noite, para matar saudades de vocês todos
- Não estás em condições para isso, tu tens que descansar
- Falo com a minha mãe e vão lá todos jantar, que achas?
- Não acho boa ideia, tens que descansar e guardar forças para a recuperação
- Oh anda lá, eu falo com o médico sexy, que é um chato – rimo-nos
- Ainda agora acordaste e já sacaste a pinta ao doutor?
- Não tenho culpa de me darem um médico charmoso. Mas marcas o jantar?
- Vou ver se eles podem
- Fixe. Olha e o nosso Benfica como anda? – entra a enfermeira com uma auxiliar
- Desculpem interromper mas a sua amiga tem que ir embora está na hora de jantar e tomar a medicação para descansar, se é que quer ter alta amanhã
- Tem mesmo que ser?
- Sim, amanhã podem conversar
- Ohhh… está bem – a Magda aproximou-se para me cumprimentar, eu como orgulhosa que sou tentei levantar o braço para lhe dar mais cinco como sempre fazíamos, consegui bater uma vez mas a segunda já não consegui – eu tentei
- És sempre a mesma coisa rapariga, tens que ter juízo. Vá até amanhã – virou costas e saiu
Como ainda estava fraca e mal mexia, a auxiliar deu-me a comida a boca, sentia-me uma inválida. Não queria que isto acontecesse mais vezes. Quando acabei de comer pedi à enfermeira se podia ligar para a minha mãe, queria saber como ela e o pessoal de minha casa estavam, mas não me deixaram fazê-lo. Disseram que já lhe tinham ligado a contar o que se tinha passado e que amanhã de manhã ela me vinha visitar. Fiquei um pouco chateada mas com a medicação adormeci logo.
Acordei, passado um bocado vieram-me trazer o pequeno-almoço, mais uma vez tiveram que me dar à boca, como eu odeio esta sensação de incapaz. Estava a ver televisão quando bateram a porta do quarto, pensei que era o médico ou a minha mãe. Entrou um rapaz alto, moreno de olhos verdes, com barba aparada, o rapaz era bem giro.
- Carol? Já acordaste? – correu para a minha beira e abraçou-me, eu não fazia a mínima ideia quem era este tipo, nunca o vi mais gordo – estava com tantas saudades tuas, princesa – sentou-se ao meu lado e agarrou-me a mão - Não via a hora deste momento acontecer – estava completamente perplexa a olhar para o tipo, de certeza que ele se enganou na pessoa – a Magda não me contou nada, aposto que foste tu que lhe pediste para me fazer uma surpresa não foi? – abanei a cabeça a dizer que não – tenho tantas saudades tuas – aproximou-se para me dar um beijo eu virei de imediato a cara
- Mas estás parvo? Eu não te conheço de lado nenhum e entras aqui e vens-me beijar! Sai já daqui ou chamo as enfermeiras!
- Não me conheces? Carol, sou o Pedro o teu namorado, não te lembras de mim?
- O meu quê? Eu não tenho namorado nenhum, estás maluco! Sai daqui!
- Carolina, o que se passa contigo?
- Já disse que eu não te conheço, sai do meu quarto já!!! – respirei fundo e berrei – saiiiiiiii – o rapaz começou a chorar e saiu do quarto, mal ele saiu entrou uma enfermeira
- O que se passa aqui?
- Aquele maluco entrou aqui e começou a dizer que era meu namorado! Eu não o conheço de lado nenhum! E como raio ele sabe o meu nome? Está escrito na porta?
- Não, não tem lá o seu nome vai contra a politica deste hospital
- Então como sabe o meu nome? Eu nunca o vi mais gordo! E o mais estranho é que ele parecia mesmo que me conhecia, vi alguma sinceridade no olhar daquele tipo. Eu conheço-o? – olhei para a enfermeira que encolheu os ombros enquanto preparava a medicação – Só gostava de saber como o tipo soube o meu nome, ele não era feio mas que lata chegar aqui e tentar pregar-me um beijo! Ainda por cima, tinha aquele sotaque lisboeta! – senti uma leve picada no braço e segundos depois estava a dormir.

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Pedro quando saiu do quarto da Carolina

            Quando sai do quarto encostei-me à parede a chorar, e milhões de perguntas me surgiram na mente: o que se passa com ela? Não se lembre de mim? E a raiva nos olhos dela quando a tentei beijar? Nunca a vi assim! Porque será que não se lembra de mim? Porque é que a Magda não me contou que ela tinha acordado? Será que foi por causa disto, de ela não se lembrar de mim? Eu que finalmente pensava que tinha a minha princesa de volta e tenho esta receção? Porque não fiquei a trabalhar? Eu só gostava de ter respostas para estas perguntas todas! Será que se ela perdeu a memória algum dia vai recuperar? Preciso mesmo de falar com o médico!
            Levantei-me, fui a casa de banho que ficava nesse corredor limpei a cara e depois perguntei a uma enfermeira que ia a passar onde ficava o gabinete do Dr. Francisco. Ela indicou-me o caminho e eu fui lá. Bati a porta e segundos depois ele respondeu
- Sim? – abri a porta
- Posso entrar?
- Claro que sim – levantou-se da cadeira e cumprimentou-me – o senhor é?
- Eu sou o Pedro, o suposto namorado da Carolina. Aquela menina que esteve em coma
- Sim eu sei exatamente quem é. Estou a ver que a Magda lhe contou tudo
- A Magda não me contou nada, eu é que vim vê-la e não tive uma receção. Gostava de saber o que se passa – o médico explicou-me direitinho o que se estava a passar, por mais que me custasse acreditar que a Carolina não se lembrava de mim, tinha que ser forte e tentar ajudá-la no máximo que pudesse. Se for preciso reconquistá-la, estou disposto a isso, eu amo demais aquela rapariga para desistir a primeira adversidade
- Posso contar consigo para ajudar a Carolina?
- Claro que pode, estou disposto a tudo
- Temos que ir com muita calma, mais daqui a pouco um amigo meu psicólogo vai falar com ela
- Eu vou-lhe deixar o meu contacto, quero estar a par de tudo e sempre que for preciso eu venho cá – escrevi o número num post-it e dei
- Eu ligarei quando souber de alguma coisa e fale com a Magda, não sei se sabe mas o amigo delas, o André morreu ontem de madrugada e ela não deve estar nada bem.
- Eu vou falar com ela, muito obrigada por tudo – despedi-me do médico e saí do gabinete.
            Como não estava a fazer nada no Porto, voltei a Lisboa e a meio do caminho parei na Mealhada, liguei à Magda a contar o que se tinha passado e perguntei como ela estava. Disse-lhe também que sempre que ela precisasse podia contar comigo, agradeceu e pediu desculpa por não ter dito nada, ao qual lhe respondi que compreendia a atitude dela, não se precisava de preocupar. Depois da conversa segui viagem, ainda queria passar no trabalho, mas não queria encontrar a minha nova colega de trabalho, a Filipa. Ela anda muito chata, sempre a mandar mensagens e a ligar.

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            Passado algum tempo acordei, com a voz da enfermeira
- Menina Carolina, está na altura de acordar. Já está na hora do almoço
- Eu dormi assim tanto? – ela abanou a cabeça em sinal de afirmação – e o outro maluco já foi embora?
- Estava a falar de mim? – disse o médico charmoso enquanto entrava no quarto acompanhado por outro médico
- Não, esteve a pouco aqui um rapaz a dizer que era meu namorado e tentou-me beijar, acha isto normal?
- Com esses olhinhos verdes acho que qualquer rapaz a tentaria beijar
- Isso é um elogio? – corei
- Escusa de corar, menina Carolina. Hoje trago-lhe aqui o meu amigo, o Dr. Paulo, para falar consigo
- Falar comigo sobre o quê?
- Não queres saber o que se passou enquanto dormias? – acenei que sim – tens aqui a solução para as tuas perguntas. Vou deixar vos a sós – saiu do quarto
- Posso fazer uma pergunta?
- Todas as que quiser – respondeu o Dr. Paulo
- Já começa a ficar muito frio lá fora? É que vocês vêm todos cheios de roupa – ele soltou uma gargalhada
- Sim está um pouco de frio lá fora. Carolina, eu tenho que lhe contar uma coisa
- Conte, mais noticias para eu digerir?
- Sim. Como sabe teve o acidente de carro durante uma viagem, certo? – acenei positivamente – esse acidente foi durante uma viagem Lisboa-Porto
- Mas eu não me lembro de fazer viagem nenhuma a Lisboa
- Pois, aí está o problema. A Carolina teve perda de memória durante o estado de inconsciência, ficou parada no dia que provavelmente mudou o rumo da sua vida – fiquei a olhar de boca aberta para o doutor quer que pare por aqui e mais tarde continuamos?
- Não por favor continue, eu quero saber tudo!
- Eu vou-lhe contar, mas tem que me prometer se achar que está a ser muita informação me avisa e eu para imediatamente, entendido? – acenei que sim – Primeiro tenho que lhe dizer que estamos em Janeiro – fiquei com os olhos esbugalhados a olhar para o doutor, como podia passar tanto tempo e eu não me lembrar de nada? – A Carolina arranjou trabalho em Lisboa, morava lá e nas férias de Natal, quando regressava a casa teve o acidente.
- Então… então quer dizer que aquele rapaz… aquele rapaz era meu… era mesmo meu namorado? – sentia um aperto tão grande no coração, sentia-me tão ridícula, tão estúpida
- Sim, ele é o seu namorado. Ele e a Magda vinham consigo no carro quando teve o acidente.
- Fui tão bruta com o rapaz quando ele aqui esteve. Posso falar com ele? Ele ainda cá está?
- Não, ele já foi embora. O Xico contou-lhe o que se passava consigo e ele achou melhor você primeiro digerir tudo para depois conversarem, na realidade a Carolina não o conhece neste momento.
- Mas… mas se eu gostava tanto dele para sermos namorados eu não me devia lembrar dele?
- Há coisas sobre o nosso cérebro que ainda desconhecemos e esta é uma delas
- O que mais se passou enquanto dormia? Mais alguém entrou na minha vida? Quero saber de tudo, eu preciso de saber
- Entrou uma pessoa na vida da sua amiga, não sei se tinha qualquer ligação com ela. A Magda está quase a chegar e ela já lhe conta ok? – disse que sim – Acho que o mais importante que devia saber já lhe contei, depois eram as suas rotinas, mas isso voltará a normalidade quando estiver recuperada.
- E os meus lobitos? Eu continuo nos escuteiros, não continuo? Ou saí com a minha mudança para Lisboa?
- Não, você continua a tomar conta dos seus pequenitos e pelo que sei eles fizeram um presente para si, deve ser a sua amiga que o tem para lhe dar.
- Como vou fazer agora para voltar à minha vida normal? Eu não me lembro, onde trabalho, quem são os meus colegas de trabalho e nem sequer me lembro do que fazia.
- A Carolina primeiro tem que recuperar, vai começar com a fisioterapia logo ao final do dia, se quiser é claro, e todos os dias eu venho aqui para conversarmos e ajudá-la no que poder, combinado?
- Combinado e sim quero começar a fisioterapia o mais rápido possível – bateram na porta do quarto, era a Magda
- A sua amiga chegou e eu vou deixá-las a sós para conversarem – o médico saiu do quarto
- Então como estás? – perguntou a minha amiga
- Amnésica – rimo-nos – quem é que entrou na tua vida? Eu conheço? Eu dava-me com a pessoa?
- Ei lá, vamos com calma por favor. A pessoa que te estás a referir é o Nico.
- O Nico? O Osvaldo? O Gaitán?
- Tantos nomes? Ele é só um.
- Como aconteceu? Conta-me tudo – a Magda sentou-se ao meu lado, contou como o conheceu, o que se andava a passar entre eles e também contou sobre o Lisandro
- Eles são nossos amigos e eu não me lembro disso?
- É mais ou menos isso
- Sou mesmo burra, cérebro estúpido! Quando é que os conhe… reconheço?
- Com calma, amiga, não queiras ir com pressa
- Pois, já soubeste o que eu fiz ao meu suposto namorado? Ele chama-se Pedro, não é?
- Sim já soube, foste mázinha
- Então querias o quê? Chega aqui um tipo que não faço a mínima quem é e tenta-me beijar, só não levou um estalo porque estou como estou – ela riu-se – não te rias, sabes que era menina para isso
- Por saber que és capaz é que me rio, só de imaginar a cena
- Eu gostava muito dele? Eu e ele já coiso?
- Tu e ele o quê?
- Se eu e ele já tínhamos dado um passo em frente na relação, se é que me faço entender
- Ahhh, que eu saiba não pelo menos nunca me contaste nada
- Ufa, assim fico mais descansada
- Mas sim gostavas muito dele e davam-se muito bem, apesar dos ciúmes dele da tua relação com o Licha
- Ele tinha ciúmes de nós? Porquê? Eu e o Licha eramos assim tão cúmplices?
- Não, só te davas muito bem com ele
- Ah ok. Conta-me mais coisas sobre ti e o Nico. Sobre o nosso Benfica, as redes sociais. Tudo – ela começou a contar sobre o Benfica, que estávamos em primeiro no campeonato, depois disse que não tem ligado muito ao twitter, por isso, não sabe de nenhuma novidade. Só vai ao insta ver as fotos que põem. Mostrou-me a foto que o Toto postou quando ainda estava em coma, a desejar-me as melhoras. E no fim da conversa falou finalmente da sua relação com o Osvaldo – Tu gostas dele, não gostas?
- Ai que pergunta que foste fazer!
- Não vale mentir aqui à tua amiga.
- Sinceramente, não te sei responder a essa pergunta! Já pensei muitas vezes sobre isso e não sei o que sinto
- Esse sorriso parvo na cara sempre que se fala nele não engana ninguém – ela soltou uma gargalhada
- Isso não quer dizer nada, nós ainda nos estamos a conhecer.
- Então quando eu estiver em condições quero que marques um almoço ou jantar para eu o voltar a conhecer
- Sim, depois combinamos
- Não te esqueças também é do jantar de sexta-feira
- Tenho que falar com eles mas depois logo se vê – entrou a enfermeira para me levar para a fisioterapia

quarta-feira, 1 de abril de 2015

15º Capítulo - ele não resistiu

(Magda)

            Acordei com a luz do sol a bater-me na cara, esqueci-me de fechar as precianas quando me deitei. Peguei no telemóvel para ver as horas, marcavam 9h39 e tinha duas mensagens por ler.
            De: Nico:
- Eu dou o recado ;) só enquanto fã? Boa noite ** hasta ;)
- Buenos dias Chica, como estás? Dormiste bem? Se fosse aí ao Porto, aceitarias almoçar comigo? **
            Eram 8h30 quando ele mandou a última mensagem.
            Para: Nico
- Bons dias caro Nicolas, dormi muito bem, obrigada. E tu como dormiste? O convite ainda está de pé? :b **
            Fui até à cozinha buscar uma tijela de cereais e sentei-me no sofá a ver se dava algo de interessante na tv.
            De: Nico
- Eu também dormi bem ;) claro que ainda está de pé, aceitas? **
            Para: Nico
- Mas tu vens cá?

- Já estou a caminho :b

- Tu és doido :b a que horas chegas?

- Ai é isso que achas de mim? :o às 13h passo aí em tua casa, quer dizer ainda moras no mesmo sítio, certo?

- Que me lembre sim moro ;) Ainda te recordas do caminho até cá? :o tu sabes o que acho sobre ti ;)

- Tenho boa memória :b só da parte profissional, falta a pessoal :b

- Um dia saberás :b bem faz boa viagem e não tenhas nenhum acidente **

- Posso saber logo ao almoço? :b até já **´

            Só depois de combinar as coisas com o Gaitán é que perguntei aos meus pais se podia ir almoçar e eles deixaram. Como sempre a minha mãe disse que não era boa idéia, que eu não devia ir, que era perigoso, mas o meu pai lá a convenceu. Mais perto da hora combinada, fui tomar banho e vesti uns jeans, uma sweat azul-marinho e uma camisa de ganga.


Marcavam 12h59 no relógio quando recebi a seguinte mensagem:
De: Nico
- Llegué ;) estás pronta? **
            Para: Nico
- Já desço **
            Peguei na minha carteira, despedi-me dos meus pais e saí de casa.
- Magda? – gritou a minha mãe quando já estava a descer as escadas do prédio
- Sim…
- Esqueceste-te da prenda – voltei para trás.
- Obrigada - peguei na saca e desci as escadas
            Quando cheguei à porta do prédio, mal me viu saiu logo do seu Audi Q5 preto mate que estava parado com os quatro piscas. Fogo como aquele carro era lindo!!! Ele estava de jeans e uma sweat da adidas. 


- Hola – disse ele
- Oi - aproximei-me e cumprimentei-o com dois beijinhos – antes que me esqueça, isto é para ti – dei-lhe a saca para a mão.
- Muito obrigado, mas não era preciso gastares dinheiro comigo.
- Não é que mereças – fiz uma careta - mas vá espero que gostes – ele abriu a saca delicadamente (se fosse eu já a tinha rasgado) e tirou de lá a seguinte camisola


- É mesmo gira, obrigada mais uma vez
- Vais usá-la, não vais?
- Claro que vou e já reparei que usas a prenda que te dei – olhei para o pulso e não consegui evitar sorrir.
- Sim, eu gostei bastante dele e ainda por cima combinava com o resto da roupa – olhei para ele e sorri novamente – e tu sempre com algo da adidas
- Não pode falhar, gosto muito desta marca
- Já reparei, apareces sempre nas fotos com algo deles, mas olha vamos?
- Sim, aconselhas algum sítio?
- Depende do que quiseres comer.
- Francesinha?
- Já alguma vez comeste?
- Só em Lisboa
- Então não provaste uma decente – voltei a fazer uma careta - eu conheço um local onde podemos ir – entramos no carro e fomos.
            Durante a curta viagem até ao restaurante, que ficava perto da Praça Carlos Alberto, estivemos a falar do jogo de ontem e a reação da Carolina, ele contou-me sobre a viagem à Argentina e ainda estivemos a cantar algumas músicas que passaram no rádio. Foram dez minutos bem descontraídos. Chegamos ao Restaurante O Golfinho, um sítio pequeno e acolhedor, sentámo-nos, pedi duas francesinhas com batata e duas coca-colas e continuamos a conversar.
- Devo-te um pedido de desculpas - disse ele.
- Oh esquece lá isso, já passou
- Não, eu tive uma atitude incorreta no hospital e ia estragando tudo.
- Estás desculpado, mas não voltes a repetir a brincadeira
- Ok, como tens passado os teus dias?
- Estudar para os exames, passear com os meus amigos e ir visitar a Carolina. E tu?
- Treinar e aproveitar as folgas para passear e relaxar
- Deves passar a vida na casa do Maxi, não? – rimo-nos
- Não mas vou lá de vez enquando. Ele tem a família dele, não gosto de incomodar
- Como nas fotos estás sempre com ele
- Ele é o meu melhor amigo aqui, é um grande apoio para mim. E a mulher dele também me acolheu muito bem.
- Vocês parecem inseparáveis, têm uma amizade muito bonita.
- Obrigado. Olha porque me chamaste de doido hoje de manhã?
- Então porque desperdiçaste um dia de folga para vires cá, de propósito.
- Não foi desperdício nenhum! Vim cá com todo o gosto e precisávamos de falar, estava desconfortável com a situação. E fiquei muito feliz por me mandares mensagem no final do jogo
- Como eu te disse, enquanto fã terás sempre o meu apoio independentemente de tudo. Tu és um excelente profissional, tens imenso talento, adoro ver-te jogar e ontem, mais uma vez, mostraste o que vales e marcaste um golo, o que me deixou ainda mais feliz.
- Muito obrigado pelo teu apoio, é sempre bom saber que existe alguém que gosta do nosso trabalho, é reconfortante. E é só como fã que terei o teu apoio? – olhou para mim e sorriu
- Não tens que agradecer, já te disse isso muitas vezes, só tens que continuar a fazer o teu trabalho – ri-me – e em relação à tua pergunta – o meu telemóvel começou a tocar – desculpa deixa-me ver quem é – peguei no telemóvel – André?
- Não é o André, mas sim o pai.
- Olá Sr. André, tudo bem?
- Vai estando e consigo?
- Está tudo bem. Deixe-me adivinhar, o André deixou outra vez o telemóvel em casa e ainda não apareceu desde ontem à noite?
- Não, antes fosse isso.
- Então o que se passa?
- Não sei como te hei-de dizer isto – fez uma pausa
- Está me a deixar preocupada
- O André, ontem foi de urgências para o hospital e - voltou a fazer-se silêncio – desculpa – respirou fundo – o André não resistiu – comecei a tremer, o coração a bater muito de pressa e em instantaneamente lágrimas começaram a cair-me pelo rosto.
- Mas o que se passou? – as lágrimas cada vez caíam mais depressa, o Nico levantou-se, agachou-se ao meu lado e perguntava o que se passava, eu não conseguia dizer nada só abanava a cabeça
- Ainda não sabemos, ele vai agora fazer a autópsia.
- Em que hospital está? Vou já para aí.
- Estamos no São João, mas não é preciso vires.
- Eu faço questão, dentro de quinze minutos estou aí – desliguei o telemóvel sem conseguir sequer me despedir em condições.
- O que se passa Magda? Estás-me a deixar preocupado, eu quero ajudar-te – eu abracei-o com força – fala comigo por favor – olhei para ele ainda a chorar.~
- Sabes o André? O meu amigo? – disse eu aos soluços.
- Sim, o que tem? – baixei a cabeça – por favor não chores, não gosto de te ver assim.
- Desculpa – tirei um lenço da carteira e limpei o rosto – como te estava tentar dizer, o André foi parar ao hospital ontem e a coisa foi grave, acabou por morrer – respirei fundo para tentar não deitar mais lágrimas, mas não consegui evitar, o Gaitán deu-me um abraço tão forte e tão reconfortável, senti-me mesmo bem, era isto que estava a precisar.
- Podes contar comigo para o que for preciso, ouviste? – olhei para ele e acenei com a cabeça ainda meia em lágrimas - Deixa-me ir pagar e vamos ao hospital – ele pagou a conta e fomos.
            No hospital, encontrámos o pai, mãe e irmão do meu amigo, eles estavam desolados. Eu comecei por pedir desculpa por não ter desligado a chamada em condições, e tentei perceber o que se passara para ele ter ido parar as urgências. O Ricardo contou-me que o irmão na noite passada tinha ido para a noite com os amigos e chegou muito mal. Depois de ouvir aquilo fiquei muito preocupada, pensei se não teria sido culpa daquele infeliz episódio da passagem de ano, de ter começado a experimentar drogas. Não queria acreditar que isso fosse a razão, se fosse iria sentir-me bastante culpada por não ter feito nada para o parar. Como não estava lá a fazer nada, e os resultados da autópsia só iriam sair no final do dia de amanhã, despedi-me deles e fui embora.
- Magda? – chamou-me uma voz familiar quando eu ia sair do hospital, olhei e era a mãe da Carolina - Já te ias embora? – Cumprimentei-a, apresentei o Nico e cumprimentaram-se
- Desculpe, esqueci-me completamente que tínhamos combinado vir falar com o médico
- Mas não vieste de lá agora?
- Não – baixei a cabeça para não tentar chorar – mas podemos ir lá agora – olhei para o Gaitán – importaste?
- Claro que não – respondeu ele e dirigimo-nos até ao quarto da minha amiga
- Está tudo bem Magda?
- Nem por isso – fiz uma pausa - Sabe o nosso amigo André?
- Sim, claro que sei. O que tem?
- Ele ontem a noite veio parar as urgências e não resistiu – antes que caísse alguma lágrima, respirei fundo
- O quê? Como é que isso aconteceu? – expliquei tudo até o médico aparecer. Este explicou-nos que o que se tinha passado no dia anterior com a Carolina foram sinais de que está a lutar para ficar consciente e que a qualquer momento pode acordar, mas não devíamos ficar com grandes expectativas porque às vezes isso pode demorar, depende muito do paciente.
            O Nico aproximou-se de mim e disse:
- Está a ficar um pouco tarde, tenho que ir embora.
- Já? Não podes ficar mais um pouco?
- Meia hora no máximo, é que ainda tenho uma viagem para fazer e amanhã tenho treino de manhã.
- Deixa-me só avisar a mãe da Carolina que vou levar-te ao carro e descemos – assim o fiz e fomos até ao carro – desculpa por te ter estragado o domingo.
- Não digas asneiras, gostei muito de passar o dia na tua companhia.
- Obrigada, eu também gostei de ter estado este tempo contigo, apesar de ter recebido esta má notícia.
- Pensa que nem tudo foi mau, tiveste o prazer da minha companhia e a tua amiga está a ficar boa.
- Convencido – ri-me.
- Ao menos consegui fazer-te rir.
- Pensei que o Lisandro viesse contigo, como da outra vez.
- Ele foi a Madrid com o Salvio, mas está sempre a perguntar se tenho notícias da tua amiga, se ela está melhor.
- Eles ficaram-se a dar bem, quando ela acordar temos que marcar um almoço ou jantar.
- Fico à espera – olhou para o relógio – desculpa não poder ficar contigo Magda, mas tenho mesmo de ir. Ficas bem?
- Dentro dos possíveis.
- Vamos falando está bem? – acenei que sim, ele aproximou-se e deu-me um abraço ao qual eu retribui.
- Obrigada por me ajudares, por me apoiares, por me aturares. Obrigada por tudo – ele sorriu, deu-me um beijo na testa
- Não tens que agradecer – entrou no carro – toma conta de ti.
- Quando chegares a Lisboa avisa, faz boa viagem – e lá arrancou com o carro. Eu subi até ao quarto da Carolina, precisava de falar com ela.
            Quando lá cheguei estava a mãe dela a pegar nas coisas para sair
- Ainda ficas?

- Sim, vou falar com ela um bocado e depois vou embora – despedi-me da senhora e entrei no quarto – olá amiga, quando acordas? Estou a precisar de ti – olhei para ela – ontem depois de sair daqui mandei mensagem ao Osvaldo a dar os parabéns pelo jogo, ele agradeceu e pediu desculpa pela atitude infantil dele. Hoje veio cá almoçar comigo – sorri espontaneamente só de me lembrar disto – ele não é mesmo fofo? E deu-me um abraço bem forte quando eu mais precisava – parecia que ainda sentia o abraço dele, era tão boa a sensação – eu preciso de te contar uma coisa, mas não sei se devo para teu bem – peguei na mão dela – espero que não reajas mal ao que te vou contar, tens de ser forte – olhei para ela, como estivesse a espera que ela disse “conta de uma vez” – o nosso amigo André teve um pequeno acidente e – limpei a lágrima que começava a cair pelo rosto – não aguentou, acabou por morrer – voltei a olhar para ela, que continuava sem reagir – ainda não se sabe as causas da morte, mas desconfio que seja por causa da droga. Se é por causa disso, vou-me sentir culpada para o resto da minha vida porque não fui uma boa amiga e não o ajudei a parar – as lágrimas começaram a cair – não me vou perdoar – nesse momento senti um aperto na mão bem forte, era a Carol – Carol? Estás me a ouvir? – cada vez apertava mais a minha mão – enfermeira, enfermeira! – a respiração dela era cada vez mais forte – tem calma amiga, o médico já vem aí – olhei para ela e nesse preciso momento ela abre os olhos