(Magda)
- Não te
esqueças também do jantar de sexta-feira – disse a
Carolina
- Tenho que
falar com eles mas depois logo se vê – entrou a
enfermeira e levou-a para a fisioterapia. Eu aproveitei e fui ter com os pais
do André para saber o resultado da autópsia.
O que eu suspeitava confirmava-se, não queria
acreditar! Como é que o deixei chegar a este ponto? Que raio de amiga sou eu? Não
me vou perdoar por não o ter ajudado e o deixar andar nestas coisas. Mas ele
disse que só estava a experimentar, será que me mentiu? Não aguentei mais,
peguei nas minhas coisas e saí dali. Fui para casa, precisava de estar sozinha,
precisava de pensar nos últimos acontecimentos. O acidente, a morte do André, a
falta de memória da Carol, eu tenho que me concentrar para os exames e assim
não dá.
Estava
em casa, a estudar Parasitologia quando recebi uma mensagem
De: Nico
- Hola, como
estas? Nunca mais disseste nada, passa-se alguma coisa? **
Para: Nico
- Passa-se
muita coisa…
- Assim
deixas-me preocupado, tenho que ir aí?
- Acho que
não, não quero atrapalhar a tua vida
- Sabes que
não é nenhum sacrifício para mim. Mas diz-me lá o que se passa por favor
- Podes ligar?
É mais fácil…
Segundos depois estava a receber a chamada
dele
-
Estou?
- Já
me podes contar?
- Sim
– comecei por contar que a Carolina tinha acordado
do coma, que não se lembrava de nada desde que se tinha mudado para Lisboa e
que ia ter que fazer fisioterapia
- Não
se lembra de mesmo nada? E não vai poder recuperar?
-
Não, nem do Pedro se lembra e ele foi lá visitá-la
-
Coitado, ele está bem?
-
Sim, ficou só um pouco magoado por ela não se lembrar dele mas já disse que a
vai reconquistar
-
Diz-lhe que se precisar de alguma coisa, estou aqui para ajudar
-
Obrigada
- E
já sabes alguma coisa do teu amigo?
-
Si…im - disse eu meia a gaguejar
- E
então? O que acusou?
-
Overdose – as lágrimas escorreram pelo rosto
-
Estás a chorar?
- Não
- Não
me mintas, Magda!
- Eu
sou uma péssima amiga, não consegui evitar que ele deixasse aquilo – as lágrimas escorriam cada vez mais – não me vou perdoar…
- A
culpa não é tua, ele é que escolheu aquela vida. Tu não podias ter feito nada
-
Podia sim, podia ter tentado abrir-lhe os olhos, dizer-lhe que aquilo não era
vida para ele – consegui finalmente parar de chorar
-
Tenho a certeza que ele sabia que disso mas foi uma escolha dele e tu não tens
culpa. Mentaliza-te disso, Magda!
- Não
consigo, eu era amiga dele tinha o dever de o ajudar e não consegui. Ele morreu
por minha culpa, Nico! – as lágrimas voltavam
-
Magda, acredita em mim tu não tens culpa nenhuma! Por favor, para de te
martirizar com isso, não te faz nada bem!
- Não
consigo!
-
Quando é o funeral? Eu gostava de estar presente para te apoiar
-
Depois de amanhã, não precisas de vir
- Eu
faço questão, e nesse dia estou de folga por isso…
-
Obrigada Gaitán por me ajudares
-
Faço com muito gosto, prin…Magda!
- Ias
dizer alguma coisa?
- Já
contaram à Carol?
-
Não, o médico preferiu deixar isso para amanhã
- E
no meio disto tudo tens conseguido estudar?
-
Não, não tenho cabeça para tal
- Mas
tens que o fazer, é o teu futuro
- Eu
sei, antes de me ligares estava a estudar porque sexta tenho exame
-
Então não incomodo mais, estuda lá
- Tu
nunca incomodas, mas tens razão tenho que estudar. Obrigada por tudo, Nico
-
Amizade não se agradece. Bom estudo
- Até
quinta – desliguei a chamada e continuei a estudar
até as onze da noite, só parei mesmo para jantar qualquer coisa. Fui dar uma olhadela
pelas redes sociais para saber o que se andava a passar e acabei por adormecer.
Acordei cedo para continuar a estudar, tenho
muita matéria para decorar até sexta e hoje já é quarta. Perto da hora de
almoço, fui tomar banho e arranjar-me, pois ia almoçar a casa dos meus avós e
depois tinha que passar no hospital. Mal cheguei ao hospital, fui direta ao
gabinete do Dr Francisco para saber como tinha corrido com a minha amiga e
saber como poderia encontrá- la. Ele disse que nos primeiros minutos ela ficou
em estado de choque, sem reagir mas que depois chorou imenso e encheu-o de
perguntas, como morreu, porque ninguém lhe contou mal acordou, desde quando o
André andava na droga, se ela sabia disso.
- Magda,
eu sei que isto tudo está a ser difícil para si mas a sua amiga vai precisar
muito do seu apoio
- I know,
mas se eu bem a conheço ela vai lidar bem com isto e vai lhe dar ainda mais forças
para recuperar
-
Espero que sim, ela estava a recusar ir a fisioterapia mas lá a convenci a ir
- Isso
é a birra inicial, aposto que depois de ter começado a sessão não quis parar. Ela
gosta de se agarrar a alguma coisa para esquecer as más, gosta de ter a mente
ocupada.
- Por
um lado faz bem mas por outro evitar os problemas não é a melhor opção
- É o
que eu lhe costumo dizer mas com a ajuda do psicólogo era irá recuperar rápido
-
Sim, o meu amigo está sempre disponível para atender basta ela lhe ligar
-
Muito obrigada por serem excelentes profissionais e tratarem tão bem dela
- Ora
essa, é o nosso dever
- Mas
hoje em dia nem todos os médicos são assim
- Tem
razão
-
Acha que a sessão de fisioterapia já acabou? É que ainda tenho que ir estudar – o Francisco olhou para o relógio
-
Acho que sim, só se prolongaram a sessão mas vá lá ao quarto - levantei-me, despedi-me do médico e fui ter com a minha
amiga.
Mal cheguei a beira da Carol, aproximei-me dela,
dei-lhe um abraço bem forte e ela retribuiu. Sabíamos exatamente que era aquilo
que ambas estávamos a precisar, estivemos assim durante uns minutos em silêncio
sem dizer nada, como se o tempo tivesse parado.
-
Como estás? – sussurrou ela ao meu ouvido
-
Dentro dos possíveis e tu?
- A
mim não vale mentir, sei que não estás bem! Estares a lidar com isto tudo ao
mesmo tempo não deve estar a ser nada fácil, e eu sem poder ajudar.
- Não
digas asneiras, estares aqui acordada já é uma grande ajuda
- Mas
não me lembro de nada
-
Isso é o menos, o que importa é que estás viva e bem de saúde
- O
André já não pode dizer o mesmo - rimo-nos
- Só
tu para me fazeres rir numa altura como esta
-
Temos que animar o ambiente. Amanhã vens me buscar para ir ao funeral, certo?
- Sim,
vamos com a Olivia e Tomás no carro
-
Fixe, já tenho saudades deles
- Talvez
eu vá lá ter
-
Porque? Tens exame?
-
Não, o Osvaldo vem também
- Não
vem nada!
- Vem,
quer dizer pelo menos ele disse-me ontem que vinha
- É
desta que o vou conhecer – falamos durante
mais um pouco e depois voltei para casa para continuar a estudar até ir para a
cama
Como o funeral é só as 14h aproveitei a manhã
para rever mais um bocado os apontamentos, pois antes de dormir combinei com o Nico que almoçaria com
ele e depois seguíamos para a igreja. Passava pouco do meio dia quando recebi a
seguinte mensagem
De:
Nico
- estou
a chegar ***
Para:
Nico
-
Estou pronta :b ***
Estava a ler um pouco sobre parasitologia
animal quando ouvi um carro a apitar, fui à janela e confirmava-se era ele.
Peguei na carteira e saí de casa. Ao aproximar-me do carro, reparei que ele não
estava sozinho, o Lisandro tinha vindo com ele.
- Olá
– disse o Gaitan quando saia do carro e
cumprimentou-me com dois beijinhos –
trouxe companhia, espero que não leves a mal
- Na
boa, não estava era à espera, como não disseste nada
- Foi
à ùltima da hora e assim tenho companhia na viagem
- Fizeste
bem – olhei para dentro do carro e acenei para o
Licha que sorriu e retribuiu – acho que
alguém vai adorar vê-lo
- Ele
também está desejoso de a ver, mas não lhe digas que te contei isto senão
mata-me - rimo-nos
- Então
vou lhe contar
- Ai
queres me ver morto? – começou-me a
fazer cócegas, instintivamente dei um salto para trás, do nada aparece um carro,
o Nico só teve tempo de me agarrar pela cintura e puxar contra o corpo dele.
Ficamos colados um ao outro, nem uma ponta de vento passava entre nós! As
minhas mãos pousadas no peito dele, sentia o coração dele a bater cada vez mais
depressa, as mãos dele a volta da minha cintura, olhos nos olhos! Parecia que
tudo à nossa volta tinha desaparecido até que o Lisandro toca na buzina e diz:
- Os pombinhos
vão demorar? Tenho fome – o Gaitán larga-me
e responde
- Vamos
a isso! - abriu-me a porta detrás e entrei no carro – Magda, sabes algum sítio perto que
possamos ir almoçar?
-
Podemos ir ali à centralidade, comes-se bem e costuma ter pouca gente
-
Tens que indicar o caminho – expliquei
o caminho e lá fomos.
Mal terminou o almoço, fomos para a igreja e
já lá estavam os meus amigos. A cara de espantada da Carolina, quando me viu
com o Nico e Lisandro foi hilariante que até começamos todos a rir.
- Olá
– disse eu, cumprimentei-os e fiz as devidas apresentações
- O
que é que ele faz aqui? – perguntou a
Carol apontando para o Licha
- Queria-te
ver – olhei para ele e pisquei o olho
- Vai
gozar com outra
- Ela
está a dizer a verdade – disse o Lisandro,
agachou-se e ficou a falar com ela. Enquanto isso eu, Nico, Olivia e Tomás fomos
ter com os pais do André para dar uma palavra de apoio e dizer que estamos aqui
para ajudar no que for preciso, eles agradeceram.
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Carolina enquanto ficou a falar com o Lisandro
- Mas
eu não me lembro de nada
- Ainda
bem, assim não te lembras de um certo episódio - riu-se
- O
quê?
- Nada,
nada! Como é que tu estás?
-
Dentro dos possíveis, ainda muito confusa com isto tudo mas o médico diz que é
normal. E tu como estás? Ouvi dizer que o mister tem apostado em ti estes
últimos jogos
- Estou
bem, graças a deus. É verdade, tenho trabalhado para isso
- Fico
mesmo feliz por ti, não sei se te disse alguma vez mas eu gosto muito do teu
trabalho. Acho que transmites muita tranquilidade aos teus colegas e és muito
seguro de ti. Tu e o Luisão fazem uma dupla perfeita
- Obrigada
mais uma vez, é muito bom saber que há quem goste do nosso trabalho
- Eu
gosto muito, e estarei sempre aqui para te apoiar – sorri – posso
fazer uma pergunta?
-
Claro
- Eu
e tu costumávamos falar muitas vezes? Éramos muito amigos? Ou estávamos próximos?
Ah a Magda e o Nico já tiveram alguma coisa? Se é que me faço entender
- Txii,
tantas perguntas - rimo-nos – falávamos de vez em quando e às vezes íamos sair, saímos os quatro
juntos. Que eu saiba eles ainda não tiveram nada mas está para breve
-
Para breve? Uiii que ando a perder? – contou
o que se passou com eles quando a foram buscar a casa e que ele tinha estragado
o momento – foste mauzinho
- Não
tinha reparado, só me apercebi quando os vi a soltarem-se
-
Desculpas, desculpas – fiz-lhe uma
careta
-
Quando vamos sair os quatro outro vez?
-
Quando eu me livrar desta menina – apontei
para a cadeira de rodas – não vos quero
dar trabalho
- Não
seria sacrifício nenhum, gosto da tua companhia
-
Adorava dizer o mesmo mas tu sabes
-
Temos que marcar uma saída, então
-
Combinado. Vamos ter com eles? – ele
acenou que sim, foi para trás da cadeira e empurrou-a
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A missa decorreu normalmente, eu chorei na
parte da homilia, foi um momento muito triste. Durante esse momento o Gaitán
abraçou-me o que me deixou mais calma, senti que estava segura, que tenho um
amigo com quem posso contar e só tenho que lhe agradecer por isso. No final da
missa, fomos em procissão até ao cemitério, sabia que aí ia ser o pior momento,
o momento da despedida final. Colocaram o caixão na cova, o irmão dele foi o
primeiro a lançar um pouco de terra e a seguir foram outros familiares. Olhei
para Carol e sabia que estava na hora da nossa vez, peguei na cadeira e
empurrei até junto do monte terra, baixei-me dei um pouco de terra à minha
amiga e fiquei com outro na mão. Ficamos alguns segundos a olhar para o caixão,
na minha mente só surgiam imagens dos nossos momentos juntos, ele a sorrir o
que me fez sorrir também no meio das lágrimas que escorriam pela cara. O Tomás
aproximava-se de nós quando tropeçou e caiu, todos se riram, até ele. Levantou-se
e sussurrei-lhe:
- Só
fazes asneiras
- Não
estava a contar com aquela pedra ali
-
Tens que estar atento, sempre alerta -
rimo-nos os dois
Ele e a Olivia também pegaram num pedaço de
terra, olhamos uns para os outros, contamos até três lançamos a terra para cima
do caixão. Voltamos a olhar uns para os outros, sorrimos e abraçamo-nos, foi um
momento especial, já tinha saudades destes momentos de união, de estarmos todos
juntos, de ter os meus amigos ao meu lado. Apesar de faltar o André, eu sabia
que de alguma forma ele estava presente, pode parecer clichê mas é o que sinto.
Regressámos para junto do Nico e o Lisandro, que nos convidaram para ir lanchar
e dar uma volta e nós aceitamos. Antes de irmos embora fomos nos despedir dos
pais do nosso amigo e dizer mais uma vez que sentimos muito a perda dele e que
pode contar sempre connosco. Fomos a uma confeitaria junto à praia de Matosinhos,
pouco tempo depois de lá chegarmos a Olívia tinha que ir embora porque tinha
ensaio da Tuna e o Tomás tinha que apanhar a camioneta para a aldeia senão não
tinha como regressar, foram juntos no carro dela.
-
Estes dois qualquer dia ainda acabam juntos –
disse eu quando eles foram embora
- Mas
ela já não namora? – perguntou Carolina
-
Namora, mas este dois andam muito juntinhos. Sempre a falarem, aos segredinhos
e agora um vai embora e o outro também
- UI,
então vamos ter casal - rimo-nos
-
Raparigas juntas dá nisto – comentou o Licha
-
Imagino as conversas de homens, sempre a apreciar as meninas que passam – respondeu logo a Carol
- Bem
mais interessante
- Deves
ser fresco, deves – eu e o Nico rimo-nos
-
Vamos dar uma volta a pé ali na marginal? –
sugeri eu, eles acenaram que sim e lá fomos. O Lisandro e a minha amiga iam mais a frente,
sempre a pegarem um com o outro, já eu e o Gaitán vínhamos atrás a falar.
- Sabes
daqui a duas/três semanas faço anos, vou fazer uma festinha lá em casa e
gostava que estivesses presente
- Ohhhhh
que querido! Mas eu não conheço ninguém
-
Conheces sim, vai o Licha, Toto e família, Maxi e família… e claro estou lá eu
- Só
conheço o Licha e mesmo assim, ele dá-se é com a Carol
-
Também a vou convidar
-
Sendo assim, já posso pensar no assunto
-
Tens que vir, o Maxi quer-te conhecer
- O
paizinho quer-me conhecer?
- ah?
Paizinho? - aproximou-se uma rapariga para lhe pedir uma
foto e aceitou - desculpa
- Não
tens que pedir desculpa. O Maxi parece teu pai, já te tinha explicado isso
- Já
me lembro - riu-se –
sim, ele quer-te conhecer, como lhe falei sobre ti e como nos damos bem, ele ficou
curioso.
-
Será um privilégio. E a tua família não vem?
-
Talvez venha o meu irmão, o Germán mas ainda não é certo
- A
tua mãe e pai não podem vir?
-
Nessa altura não, não conseguem
- Oh
que chunga
-
Conheces noutro dia
-
Fico à espera – ele olhou para o relógio
-
Licha? – ele olhou para trás – temos que ir embora
- Já?
– perguntou a Carolina
-
Sim, temos que voltar para Lisboa
- E
tu tens que voltar para o hospital, o Dr. Francisco ainda me vai matar – disse eu
- Vai
nada, o Xico gosta mais de mim que chocolate
-
Convencida – disse o Lisandro, ela olhou para ele e fez
uma careta
Deixamos primeiro a Carol no hospital, que
demorou um pouco pois o Lisandro demorou a despedir-se dela. Depois deixaram-me
em casa e seguiram viagem.