sábado, 16 de maio de 2015

17º Capitulo - não me vou perdoar...

(Magda)

- Não te esqueças também do jantar de sexta-feira – disse a Carolina
- Tenho que falar com eles mas depois logo se vê – entrou a enfermeira e levou-a para a fisioterapia. Eu aproveitei e fui ter com os pais do André para saber o resultado da autópsia.
O que eu suspeitava confirmava-se, não queria acreditar! Como é que o deixei chegar a este ponto? Que raio de amiga sou eu? Não me vou perdoar por não o ter ajudado e o deixar andar nestas coisas. Mas ele disse que só estava a experimentar, será que me mentiu? Não aguentei mais, peguei nas minhas coisas e saí dali. Fui para casa, precisava de estar sozinha, precisava de pensar nos últimos acontecimentos. O acidente, a morte do André, a falta de memória da Carol, eu tenho que me concentrar para os exames e assim não dá.
            Estava em casa, a estudar Parasitologia quando recebi uma mensagem
De: Nico
- Hola, como estas? Nunca mais disseste nada, passa-se alguma coisa? **
Para: Nico
- Passa-se muita coisa…

- Assim deixas-me preocupado, tenho que ir aí?
- Acho que não, não quero atrapalhar a tua vida
- Sabes que não é nenhum sacrifício para mim. Mas diz-me lá o que se passa por favor
- Podes ligar? É mais fácil…

Segundos depois estava a receber a chamada dele
- Estou?
- Já me podes contar?
- Sim – comecei por contar que a Carolina tinha acordado do coma, que não se lembrava de nada desde que se tinha mudado para Lisboa e que ia ter que fazer fisioterapia
- Não se lembra de mesmo nada? E não vai poder recuperar?
- Não, nem do Pedro se lembra e ele foi lá visitá-la
- Coitado, ele está bem?
- Sim, ficou só um pouco magoado por ela não se lembrar dele mas já disse que a vai reconquistar
- Diz-lhe que se precisar de alguma coisa, estou aqui para ajudar
- Obrigada
- E já sabes alguma coisa do teu amigo?
- Si…im - disse eu meia a gaguejar
- E então? O que acusou?
- Overdose – as lágrimas escorreram pelo rosto
- Estás a chorar?
- Não
- Não me mintas, Magda!
- Eu sou uma péssima amiga, não consegui evitar que ele deixasse aquilo – as lágrimas escorriam cada vez mais – não me vou perdoar…
- A culpa não é tua, ele é que escolheu aquela vida. Tu não podias ter feito nada
- Podia sim, podia ter tentado abrir-lhe os olhos, dizer-lhe que aquilo não era vida para ele – consegui finalmente parar de chorar
- Tenho a certeza que ele sabia que disso mas foi uma escolha dele e tu não tens culpa. Mentaliza-te disso, Magda!
- Não consigo, eu era amiga dele tinha o dever de o ajudar e não consegui. Ele morreu por minha culpa, Nico! –  as lágrimas voltavam
- Magda, acredita em mim tu não tens culpa nenhuma! Por favor, para de te martirizar com isso, não te faz nada bem!
- Não consigo!
- Quando é o funeral? Eu gostava de estar presente para te apoiar
- Depois de amanhã, não precisas de vir
- Eu faço questão, e nesse dia estou de folga por isso…
- Obrigada Gaitán por me ajudares
- Faço com muito gosto, prin…Magda!
- Ias dizer alguma coisa?
- Já contaram à Carol?
- Não, o médico preferiu deixar isso para amanhã
- E no meio disto tudo tens conseguido estudar?
- Não, não tenho cabeça para tal
- Mas tens que o fazer, é o teu futuro
- Eu sei, antes de me ligares estava a estudar porque sexta tenho exame
- Então não incomodo mais, estuda lá
- Tu nunca incomodas, mas tens razão tenho que estudar. Obrigada por tudo, Nico
- Amizade não se agradece. Bom estudo
- Até quinta desliguei a chamada e continuei a estudar até as onze da noite, só parei mesmo para jantar qualquer coisa. Fui dar uma olhadela pelas redes sociais para saber o que se andava a passar e acabei por adormecer.
Acordei cedo para continuar a estudar, tenho muita matéria para decorar até sexta e hoje já é quarta. Perto da hora de almoço, fui tomar banho e arranjar-me, pois ia almoçar a casa dos meus avós e depois tinha que passar no hospital. Mal cheguei ao hospital, fui direta ao gabinete do Dr Francisco para saber como tinha corrido com a minha amiga e saber como poderia encontrá- la. Ele disse que nos primeiros minutos ela ficou em estado de choque, sem reagir mas que depois chorou imenso e encheu-o de perguntas, como morreu, porque ninguém lhe contou mal acordou, desde quando o André andava na droga, se ela sabia disso.
- Magda, eu sei que isto tudo está a ser difícil para si mas a sua amiga vai precisar muito do seu apoio
- I know, mas se eu bem a conheço ela vai lidar bem com isto e vai lhe dar ainda mais forças para recuperar
- Espero que sim, ela estava a recusar ir a fisioterapia mas lá a convenci a ir
- Isso é a birra inicial, aposto que depois de ter começado a sessão não quis parar. Ela gosta de se agarrar a alguma coisa para esquecer as más, gosta de ter a mente ocupada.
- Por um lado faz bem mas por outro evitar os problemas não é a melhor opção
- É o que eu lhe costumo dizer mas com a ajuda do psicólogo era irá recuperar rápido
- Sim, o meu amigo está sempre disponível para atender basta ela lhe ligar
- Muito obrigada por serem excelentes profissionais e tratarem tão bem dela
- Ora essa, é o nosso dever
- Mas hoje em dia nem todos os médicos são assim
- Tem razão
- Acha que a sessão de fisioterapia já acabou? É que ainda tenho que ir estudar – o Francisco olhou para o relógio
- Acho que sim, só se prolongaram a sessão mas vá lá ao quarto - levantei-me, despedi-me do médico e fui ter com a minha amiga.
Mal cheguei a beira da Carol, aproximei-me dela, dei-lhe um abraço bem forte e ela retribuiu. Sabíamos exatamente que era aquilo que ambas estávamos a precisar, estivemos assim durante uns minutos em silêncio sem dizer nada, como se o tempo tivesse parado.
- Como estás? – sussurrou ela ao meu ouvido
- Dentro dos possíveis e tu?
- A mim não vale mentir, sei que não estás bem! Estares a lidar com isto tudo ao mesmo tempo não deve estar a ser nada fácil, e eu sem poder ajudar.
- Não digas asneiras, estares aqui acordada já é uma grande ajuda
- Mas não me lembro de nada
- Isso é o menos, o que importa é que estás viva e bem de saúde
- O André já não pode dizer o mesmo - rimo-nos
- Só tu para me fazeres rir numa altura como esta
- Temos que animar o ambiente. Amanhã vens me buscar para ir ao funeral, certo?
- Sim, vamos com a Olivia e Tomás no carro
- Fixe, já tenho saudades deles
- Talvez eu vá lá ter
- Porque? Tens exame?
- Não, o Osvaldo vem também
- Não vem nada!
- Vem, quer dizer pelo menos ele disse-me ontem que vinha
- É desta que o vou conhecer falamos durante mais um pouco e depois voltei para casa para continuar a estudar até ir para a cama
Como o funeral é só as 14h aproveitei a manhã para rever mais um bocado os apontamentos, pois antes de  dormir combinei com o Nico que almoçaria com ele e depois seguíamos para a igreja. Passava pouco do meio dia quando recebi a seguinte mensagem
De: Nico
- estou a chegar ***
Para: Nico
- Estou pronta :b ***
Estava a ler um pouco sobre parasitologia animal quando ouvi um carro a apitar, fui à janela e confirmava-se era ele. Peguei na carteira e saí de casa. Ao aproximar-me do carro, reparei que ele não estava sozinho, o Lisandro tinha vindo com ele.
- Olá – disse o Gaitan quando saia do carro e cumprimentou-me com dois beijinhos – trouxe companhia, espero que não leves a mal
- Na boa, não estava era à espera, como não disseste nada
- Foi à ùltima da hora e assim tenho companhia na viagem
- Fizeste bem – olhei para dentro do carro e acenei para o Licha que sorriu e retribuiu – acho que alguém vai adorar vê-lo
- Ele também está desejoso de a ver, mas não lhe digas que te contei isto senão mata-me - rimo-nos
- Então vou lhe contar
- Ai queres me ver morto? – começou-me a fazer cócegas, instintivamente dei um salto para trás, do nada aparece um carro, o Nico só teve tempo de me agarrar pela cintura e puxar contra o corpo dele. Ficamos colados um ao outro, nem uma ponta de vento passava entre nós! As minhas mãos pousadas no peito dele, sentia o coração dele a bater cada vez mais depressa, as mãos dele a volta da minha cintura, olhos nos olhos! Parecia que tudo à nossa volta tinha desaparecido até que o Lisandro toca na buzina e diz:
- Os pombinhos vão demorar? Tenho fome – o Gaitán larga-me e responde
- Vamos a isso! - abriu-me a porta detrás e entrei no carro – Magda, sabes algum sítio perto que possamos ir almoçar?
- Podemos ir ali à centralidade, comes-se bem e costuma ter pouca gente
- Tens que indicar o caminho – expliquei o caminho e lá fomos.
Mal terminou o almoço, fomos para a igreja e já lá estavam os meus amigos. A cara de espantada da Carolina, quando me viu com o Nico e Lisandro foi hilariante que até começamos todos a rir.
- Olá – disse eu, cumprimentei-os e fiz as devidas apresentações
- O que é que ele faz aqui? – perguntou a Carol apontando para o Licha
- Queria-te ver – olhei para ele e pisquei o olho
- Vai gozar com outra
- Ela está a dizer a verdade – disse o Lisandro, agachou-se e ficou a falar com ela. Enquanto isso eu, Nico, Olivia e Tomás fomos ter com os pais do André para dar uma palavra de apoio e dizer que estamos aqui para ajudar no que for preciso, eles agradeceram.

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Carolina enquanto ficou a falar com o Lisandro

- Mas eu não me lembro de nada
- Ainda bem, assim não te lembras de um certo episódio - riu-se
- O quê?
- Nada, nada! Como é que tu estás?
- Dentro dos possíveis, ainda muito confusa com isto tudo mas o médico diz que é normal. E tu como estás? Ouvi dizer que o mister tem apostado em ti estes últimos jogos
- Estou bem, graças a deus. É verdade, tenho trabalhado para isso
- Fico mesmo feliz por ti, não sei se te disse alguma vez mas eu gosto muito do teu trabalho. Acho que transmites muita tranquilidade aos teus colegas e és muito seguro de ti. Tu e o Luisão fazem uma dupla perfeita
- Obrigada mais uma vez, é muito bom saber que há quem goste do nosso trabalho
- Eu gosto muito, e estarei sempre aqui para te apoiar – sorri – posso fazer uma pergunta?
- Claro
- Eu e tu costumávamos falar muitas vezes? Éramos muito amigos? Ou estávamos próximos? Ah a Magda e o Nico já tiveram alguma coisa? Se é que me faço entender
- Txii, tantas perguntas - rimo-nos – falávamos de vez em quando e às vezes íamos sair, saímos os quatro juntos. Que eu saiba eles ainda não tiveram nada mas está para breve
- Para breve? Uiii que ando a perder? – contou o que se passou com eles quando a foram buscar a casa e que ele tinha estragado o momento – foste mauzinho
- Não tinha reparado, só me apercebi quando os vi a soltarem-se
- Desculpas, desculpas – fiz-lhe uma careta
- Quando vamos sair os quatro outro vez?
- Quando eu me livrar desta menina – apontei para a cadeira de rodas – não vos quero dar trabalho
- Não seria sacrifício nenhum, gosto da tua companhia
- Adorava dizer o mesmo mas tu sabes
- Temos que marcar uma saída, então
- Combinado. Vamos ter com eles? – ele acenou que sim, foi para trás da cadeira e empurrou-a

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A missa decorreu normalmente, eu chorei na parte da homilia, foi um momento muito triste. Durante esse momento o Gaitán abraçou-me o que me deixou mais calma, senti que estava segura, que tenho um amigo com quem posso contar e só tenho que lhe agradecer por isso. No final da missa, fomos em procissão até ao cemitério, sabia que aí ia ser o pior momento, o momento da despedida final. Colocaram o caixão na cova, o irmão dele foi o primeiro a lançar um pouco de terra e a seguir foram outros familiares. Olhei para Carol e sabia que estava na hora da nossa vez, peguei na cadeira e empurrei até junto do monte terra, baixei-me dei um pouco de terra à minha amiga e fiquei com outro na mão. Ficamos alguns segundos a olhar para o caixão, na minha mente só surgiam imagens dos nossos momentos juntos, ele a sorrir o que me fez sorrir também no meio das lágrimas que escorriam pela cara. O Tomás aproximava-se de nós quando tropeçou e caiu, todos se riram, até ele. Levantou-se e sussurrei-lhe:
- Só fazes asneiras
- Não estava a contar com aquela pedra ali
- Tens que estar atento, sempre alerta - rimo-nos os dois
Ele e a Olivia também pegaram num pedaço de terra, olhamos uns para os outros, contamos até três lançamos a terra para cima do caixão. Voltamos a olhar uns para os outros, sorrimos e abraçamo-nos, foi um momento especial, já tinha saudades destes momentos de união, de estarmos todos juntos, de ter os meus amigos ao meu lado. Apesar de faltar o André, eu sabia que de alguma forma ele estava presente, pode parecer clichê mas é o que sinto. Regressámos para junto do Nico e o Lisandro, que nos convidaram para ir lanchar e dar uma volta e nós aceitamos. Antes de irmos embora fomos nos despedir dos pais do nosso amigo e dizer mais uma vez que sentimos muito a perda dele e que pode contar sempre connosco. Fomos a uma confeitaria junto à praia de Matosinhos, pouco tempo depois de lá chegarmos a Olívia tinha que ir embora porque tinha ensaio da Tuna e o Tomás tinha que apanhar a camioneta para a aldeia senão não tinha como regressar, foram juntos no carro dela.
- Estes dois qualquer dia ainda acabam juntos – disse eu quando eles foram embora
- Mas ela já não namora? – perguntou Carolina
- Namora, mas este dois andam muito juntinhos. Sempre a falarem, aos segredinhos e agora um vai embora e o outro também
- UI, então vamos ter casal - rimo-nos
- Raparigas juntas dá nisto – comentou o Licha
- Imagino as conversas de homens, sempre a apreciar as meninas que passam – respondeu logo a Carol
- Bem mais interessante
- Deves ser fresco, deves – eu e o Nico rimo-nos
- Vamos dar uma volta a pé ali na marginal? – sugeri eu, eles acenaram que sim e lá fomos. O Lisandro e a minha amiga iam mais a frente, sempre a pegarem um com o outro, já eu e o Gaitán vínhamos atrás a falar.
- Sabes daqui a duas/três semanas faço anos, vou fazer uma festinha lá em casa e gostava que estivesses presente
- Ohhhhh que querido! Mas eu não conheço ninguém
- Conheces sim, vai o Licha, Toto e família, Maxi e família…  e claro estou lá eu
- Só conheço o Licha e mesmo assim, ele dá-se é com a Carol
- Também a vou convidar
- Sendo assim, já posso pensar no assunto
- Tens que vir, o Maxi quer-te conhecer
- O paizinho quer-me conhecer?
- ah? Paizinho? - aproximou-se uma rapariga para lhe pedir uma foto e aceitou - desculpa
- Não tens que pedir desculpa. O Maxi parece teu pai, já te tinha explicado isso
- Já me lembro - riu-se – sim, ele quer-te conhecer, como lhe falei sobre ti e como nos damos bem, ele ficou curioso.
- Será um privilégio. E a tua família não vem?
- Talvez venha o meu irmão, o Germán mas ainda não é certo
- A tua mãe e pai não podem vir?
- Nessa altura não, não conseguem
- Oh que chunga
- Conheces noutro dia
- Fico à espera – ele olhou para o relógio
- Licha? – ele olhou para trás – temos que ir embora
- Já? – perguntou a Carolina
- Sim, temos que voltar para Lisboa
- E tu tens que voltar para o hospital, o Dr. Francisco ainda me vai matar – disse eu
- Vai nada, o Xico gosta mais de mim que chocolate
- Convencida – disse o Lisandro, ela olhou para ele e fez uma careta

Deixamos primeiro a Carol no hospital, que demorou um pouco pois o Lisandro demorou a despedir-se dela. Depois deixaram-me em casa e seguiram viagem.