Marcava 8h30 no relógio que estava pendurado na parede em frente da minha cama, quando eu acordei. Olhei para o lado e o Pedro parecia que ainda dormia, levantei-me para ir à casa de banho sem fazer barulho para não o acordar. Voltei para o quarto e ouvi:
- Hoje foste tu que levantaste cedo – disse o Pedro com aquela voz de quem tinha acabado de despertar.
- Acordei mesmo à pouco, só foi tempo de ir à casa de banho
- Agora quem vai sou eu – ele
levantou-se e foi
Quando regressou, logo a seguir entraram
as auxiliares com o pequeno-almoço. Eu comi um pão com queijo e bebi leite com
café, e o Pedro bebeu café e comeu dois pães com manteiga. Passado meia hora
entrou a enfermeira para informar que tínhamos que ir fazer uns exames para ver
se estava tudo bem connosco para amanhã nos darem alta. Tinha que ir um de cada
vez, pois como era domingo não havia muita gente a trabalhar. O lisboeta foi o
primeiro porque tinha que fazer mais exames do que eu, fez um raio-x ao braço,
tirou amostras de sangue e no fim fez uma ressonância magnética. Eu só fui
fazer análises ao sangue.
Quando regressamos tomamos banho, e
depois fomos ver a Carolina. Desta vez eu fui a primeira.
- Olá Carol – disse mal
entrei no quarto, sentei-me junto dela –
tenho boas notícias para ti – agarrei-lhe na mão – o Salvio marcou dois golos, dedicou um à mulher e filho, e o outro ao
Lisandro – fiz uma pausa como esperasse que ela perguntasse “ao Licha?” – Sim, ao Licha, foi tudo muito estranho,
mas o que interessa é que ele marcou e nós ganhamos. Ahhh é verdade, o Lisandro
finalmente foi titular, aquilo que tu tanto pedias aconteceu. Até parece que
foi um presente do mister para ti, já viste que privilégio? – peguei no
telemóvel e fui ao instagram ver se haviam novidades para lhe contar. No meio
de tantas fotos tinha lá uma do Salvio com a seguinte descrição - estou muito feliz por ter ajudado a minha
equipa conseguir os três pontos com dois golos. O primeiro golo dedicado ao
amor da minha vida Magali e ao meu filho Valu. O segundo quero dedicar a todos
os meus fãs por todo o carinho que me dão todos os dias – quando li o que
vinha a seguir fiz uma pausa – estás
preparada? – fiz uma pausa e continuei a ler - mas em especial a uma fã que não está numa situação fácil, espero que
recupere rápido, desejo as melhoras! – olhei para ela na esperança que ela abrisse
os olhos mas não reagiu – será que isto
é para ti?? Depois eu pergunto ao Nico. Mesmo que não seja para ti vê se
acordas! – levantei-me e saí do quarto
O Pedro entrou a seguir e esteve lá
dentro quinze minutos. Enquanto esperava, os meus pensamentos recaíram todos na
descrição daquela foto. Será que era mesmo para a Carolina? Será que o Nico
contou o que se passou ao Salvio, sabendo ele que a minha amiga o adora? Será
que devia mandar mensagem ao Gaitán a perguntar? Achei melhor não,
provavelmente ele estaria a caminho da Argentina para ir matar saudades da
família, não estaria com disposição para me aturar.
Almoçamos e logo depois entram no
quarto o André, a Olívia e o Tomás.
- Surpresa – disseram os
três mal entraram no quarto
- O que fazem aqui? – perguntei eu
- Viemos fazer uma visita – respondeu o
André enquanto se sentava aos pés da minha cama
- Não estava à espera
- Não era suposto – disse o Tomás
- Nem estando num hospital tu és simpático
para mim! -
tentei fazer cara de amuada, mas comecei logo a rir - Magda, quem é aquele rapaz? – perguntou a Olívia apontando na direção do lisboeta
- Esse é o Pedro. Pedro estes são Olívia, André e Tomás, são os meus amigos – eles cumprimentaram-se
- Este não é o namorado da Carolina? – perguntou a Olívia - Sim é.
- Hummm então depois vamos ter uma conversinha - o Pedro ficou um pouco apreensivo, mas depois viu que a Olívia estava na brincadeira com ele
- Como correu ontem a festa de Natal?
- Correu muito bem, a tua equipa ganhou o jogo- A sério? Fixe, ando a fazer um bom trabalho com eles
- E tu como estás?
- Estou bem, obrigada.
- Eu não te disse que era má ideia
ires para Lisboa –
disse o Tomás
- Disseste mas nada apagará aquilo que
vivi durante os dois dias que lá fiquei
- Ui isso cheira-me que tiveste com o
coiso.
- Quem sabe…
- Andamos com segredos, agora? – perguntou logo
o André
- Não é segredo nenhum que tenho saído
com ele
- Quando o convidas para ir jantar
connosco?
- Acho que é cedo demais. Mas vamos
mudar de assunto. Então Olívia como vai o namoro?
- De vento em poupa, ele é muito
querido e estou muito feliz ao lado dele.
- Ainda bem, fico muito contente. E tu,
André como anda a Margarida?
- O que tu te foste lembrar! Já sabes
que não falo com ela desde os 16 anos
- Eu sei, mas é sempre engraçado ver a
tua cara quando se diz o nome dela
Estava na brincadeira com o André
quando ouço as enfermeiras
- Desculpe mas não pode entrar, já tem
muitas … –
naquele instante vejo a porta abrir e não contava nada com aquela visita
- Olha o argentino – disse o André
- Chamo-me Nico Gaitán caso não saibas
–
respondeu ele com ar de chateado
- Vamos lá ter calma – disse o Tomás
- O que fazes aqui? Não ias ter com a
tua família
- Vim ver como estavas, mas já vi que
estás bem –
cumprimentou o Pedro – e já tens
companhia – dirigiu-se para a porta
- Já vais embora? – perguntei eu
- Sim, não estou aqui a fazer nada
- Ok tu é que sabes, vai lá apanhar o
avião –
disse eu em tom de irritada enquanto o via a sair do quarto
- Pareces uma criança com essa atitude
–
disse o Tomás
- Ele é que está armado em parvo
- Vai lá falar com ele, masé
- Não vou nada – ele voltou a
entrar no quarto
- Esqueci-me de te entregar isto. É a
minha prenda de natal, espero que gostes – entregou-me uma saca e virou
costas
- Espera – ele olhou
para mim – obrigada pelo presente, não
era necessário. Vieste sozinho?
- Dou-te de bom grado. Não, o Lisandro
veio comigo mas foi ver a tua amiga
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Lisandro
enquanto estava no quarto com a Carolina
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- Ele foi a onde? – perguntou o Pedro com voz de poucos amigos
- Foi ver a Carolina
- Com que autorização? Eles nem amigos
são –
levantou-se da cama e dirigia-se a porta até que o Tomás agarrou-lhe no braço – larga-me
- Oh moço, acho que te devias acalmar,
a Carol não iria gostar que fizesses isso – olhou para o lisboeta que
parece ter percebido que estava de cabeça quente – e ela pode ter amigos à vontade
- Pedro, o Tomás tem razão! Acalma-te
-
disse eu
- Eu estou calmo, só não acho normal
ele vir visita-la. Mal se conhecem.
- Mas eles dão-se bem – disse o Nico
- Isso significa que são amigos? Nem todas
as pessoas com quem me dou bem são minhas amigas
- Pedro, sabes que a Carol gosta muito
do Licha como jogador, teve oportunidade de o conhecer enquanto pessoa no outro
dia ao almoço e ficaram a dar-se bem. Podes respeitar a aproximação deles? Pelo
bem da vossa relação espero que não faças nenhuma asneira
- Pelo bem dela faço tudo – saiu do
quarto mas passado cinco minutos voltou –
peço desculpa mas exaltei-me um bocado, não sei o que se passou
- Foram os ciúmes que falaram mais
alto –
disse a Olívia
- Bem, vou embora. Ainda tenho que ir
apanhar o avião e o Licha já deve estar lá em baixo à minha espera – disse o Nico,
deu-me um beijo na testa, cumprimentou os meus amigos e saiu. Ainda lhe desejei
boa viagem, mas acho que não me ouviu.
- Nós também temos que ir – disse o Tomás
- Já?? Fiquem mais um bocado, por
favor
- Não pode ser, senão fica de noite – respondeu a Olívia
- Ohh está bem. Façam uma boa viagem – despediram-se
de mim e do Pedro – e obrigada por terem
vindo
- Mais tarde eu cobro – disse o Tomás
Os meus amigos foram embora e eu
fiquei a falar com o lisboeta para perceber se ele estava mais calmo.
- Então Pedro que reação foi aquela?
- Não sei. Eu confio nela mas isto é
mais forte que eu –
disse ele com as lágrimas prestes a escorrerem pela cara – eu sei que ela gosta muito de mim e que não tenho que me preocupar
com a relação deles mas as minhas inseguranças são muitas. Tenho muito, mas
muito medo de a perder, ela é a minha melhor amiga, ela foi sem dúvida a melhor
coisa que ganhei este ano. Eu gosto mesmo dela – ele não controlou mais e
começou a chorar – eu amo-a –
levantei-me da cama e fui-lhe dar um abraço, acho que era isso que ele
precisava nesse momento, um ombro amigo.
- Podes ter a certeza absoluta que ela
também gosta muito de ti e que também foste das melhores coisas que lhe
aconteceu. Deixa esses medos de lado e confia na vossa relação. Aposto que ela
não ia gostar nada de te ver assim, não é verdade? – ele acenou
que sim enquanto limpava as lágrimas –
Neste momento só tens que ficar ao lado dela e dar-lhe o máximo de força, é
isso que ela precisa. Não é de chatices ridículas. Olha o Nico chateou-se
comigo e não sei porque
- Já que falas nisso, que reação foi
aquela quando ele entrou?
- Nem eu sei, mas também que não pense
que vou ser eu a mandar mensagem, ele é que fez asneiras
- Foi tudo por ciúmes, ver o André bem
juntinho de ti e todos divertidos, ele não aguentou e passou-se
- Mas porquê? Somos só amigos
- Ainda não percebeste que ele começa
a gostar de ti?
- Não gosta nada, ainda nos estamos a
conhecer
- Não te queiras enganar, acredita em
mim. Se ele reagiu assim isso quer dizer alguma coisa. E tu gostas dele? - neste momento
entrou a enfermeira
- Na hora H, senhora enfermeira.
- Como é que disse, menina? – perguntou a
enfermeira
- Nada, nada. Esqueça.
- Venho-vos informar que amanhã às 9h terão
alta, por isso, podem começar a arrumar as vossas coisas.
No dia seguinte, acordámos pelas 8h,
vestimo-nos, tomamos o pequeno-almoço, arrumamos as últimas coisas e fomos
embora. O Pedro voltou para Lisboa, é lá que tem a sua família e o trabalho. Eu
e a Carolina voltamos para o Porto, ela vai ser transferida para o Hospital São
João. Estávamos nós a passar as portagens nos Carvalhos, quando no rádio
ouvimos o seguinte:
- Avião com destino a Buenos Aires precedente
de Lisboa na noite passada teve problemas técnicos e teve que fazer uma paragem
de emergência. Ainda não temos mais informações
Depois de ouvirmos isto, a máquina com os batimentos
cardíacos da Carol começou a apitar, o médico avisa o condutor para ligar as
sirenes que tínhamos que chegar com a máxima urgência pois a minha amiga estava
a entrar em paragem cardíaca. Tentaram uma primeira reanimação sem efeito,
tentaram outra vez e nada, só à terceira é que conseguiram estabilizar a
situação. Rapidamente, chegámos ao hospital e ela foi logo assistida pelos
médicos, fez uns exames e confirmaram que não passou tudo de um susto. Depois
de confirmar que ela estava bem, regressei a casa com os meus pais que me foram
buscar.